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Marcelo Porto Carrero

“PERDEU MANÉ”

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Marcelo Porto Carrero

Se existe forma de saber a índole de uma pessoa é vê-la participar do saque à integridade de uma nação.

Desde 30 de outubro de 2022 estamos percebendo que as tentativas de quem se considera eleito trazer para seu lado pessoas que tenham moral, gozam de respeito e considerarão está se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. Isto se deve aos descalabros que ele expõe como verdadeiros motivos da “tomada do poder”. Aliás, ações que já se mostravam evidentes quando começaram a mostrar o esquema agora revelado posto que tramado desde antes do transcorrer dos quatro anos de governo Bolsonaro, evento este que apenas adiou a execução dos objetivos foropaulistanos.

É isso que estamos descobrindo a cada análise que fazemos das ações perpetradas por integrantes dos órgãos que comandam os processos legislativos, judiciais e eleitorais do país.

Nem o quarto poder, a imprensa, que de forma neutra e afastada de sentimentos íntimos e ideologias deveria divulgar os acontecimentos terá sucesso em sua apologia à submissão do povo a quem pode ter usurpado o poder de forma ilegal. Ao se negarem a comunicar o fluxo e o refluxo de ideias e acontecimentos ou seja, tornar comum a todos o que está acontecendo, o que as partes dizem ao se manifestarem quanto ao processo decisório mesmo após sua conclusão, passam a confirmar sua vassalagem a esse mesmo poder.

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A mensagem lenta e maquiavélica enviada pelos que aparentemente o tomaram é tal qual a que a bandidagem diz quando aborda um cidadão comum e vocifera – “PERDEU MANÉ”, tão explícita quanto uma sentença de morte.

O poder não entra em pânico, é o que dizem os que se consideram vitoriosos. Assim é, desde que a vitória tenha sido conseguida de forma lícita, ademais, que também seja reconhecida pela população sobre a qual esse tal poder será exercido. De outra forma, restará aos céticos e patriotas de sofá, engolir a seco a mensagem sub-reptícia enviada pela lenta e persistente destruição dos sentimentos nacionalistas, das convicções morais, cristãs e cívicas que sua covardia deixará a seus descendentes.

O que move quem fez a opção de se envolver pessoalmente em uma contenda da qual nunca irá se envergonhar, quanto mais se arrepender é o fato de não mais se intimidar frente à opressão imoral, corrupta e ideológica que se fez presente e nos calou no passado, agora não mais. Nesses quatro últimos anos aprendemos muito observando as posições cheias de cautela daqueles que mais uma vez ficaram olhando para seus umbigos ao permanecerem inertes, preocupados apenas com a preservação de seus próprios status.

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Provavelmente serão os primeiros a se arrependerem por seus coniventes silêncios frente aos desmandos que se fizeram presentes nas eleições de 2022, caso se concretize o resultado até agora mostrado.

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Marcelo Porto Carrero

A Excrescência na Excelência

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A Excrescência na Excelência

Existem momentos em que a palavra excelência se confunde e até se funde com outra: excrescência. É quando ficamos em dúvida se é a pessoa ou o que ela faz que constitui uma excrescência, vez que vem de quem se acha excelência. Seria o caso de haver excelência em excrescência? Essa dúvida se justifica no que estamos vendo no poder público de hoje. Quem se acha excelência, na verdade, tem tudo de excrescência.

Existem momentos em que o vocabulário trai o personagem. Excelência e excrescência. Duas palavras que se olham no espelho e quase se tocam na grafia, mas que moram em universos morais opostos. E é justamente quando elas se confundem que entendemos o tempo em que vivemos.

Vamos à raiz, porque a língua não mente.

Excelência vem de excellere: elevar-se, sobressair-se, ir além. Supõe esforço, disciplina, qualidade. Excelência não se declara, se reconhece. Ela é silenciosa, porque o próprio trabalho fala por ela.

Excrescência vem de excrescere: crescer para fora, de forma desordenada, supérflua. Na medicina, é tumor, verruga, o que cresce sem função. No corpo social, é aquilo que incha sem alimentar, que ocupa espaço sem ter serventia. É o excesso que não serve, só aparece.

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O problema começa quando alguém confunde um movimento com o outro. Quando acha que crescer para fora é o mesmo que elevar-se. Quando confunde visibilidade com valor.

E é aí que a pergunta se torna cirúrgica: teríamos hoje excelência em excrescência?

Sim. E é justamente isso que estamos vendo nos poderes da República.

A pessoa que se acha excelência vive de um ritual. Ela precisa do título, do pronome, do tapete, da deferência. Ela exige ser chamada de excelência, mas age como excrescência. Não produz, se reproduz. Não serve, se serve. Não resolve, se pendura. Como toda excrescência, precisa de um corpo hospedeiro para existir: o Estado. E como toda excrescência, quando cresce demais, adoece o corpo inteiro.

A excrescência pública tem método. Tem, inclusive, excelência — mas uma excelência invertida:

Tem excelência em transformar picuinha em pauta nacional.

Tem excelência em fazer barulho e nenhum resultado.

Tem excelência em confundir opinião com conhecimento e grito com argumento.

Tem excelência em cultivar a própria imagem enquanto apodrece o entorno.

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Tem excelência em se achar indispensável, quando na verdade é apenas inamovível.

O homem verdadeiramente excelente duvida de si. O medíocre travestido de excelente tem certeza de tudo, sobretudo de sua própria grandeza. A excelência pede humildade, porque sabe o quanto falta. A excrescência pede palco, porque sem plateia ela definha.

Por isso a dúvida levantada é legítima e dolorosa. Olhamos para certos personagens e não sabemos mais distinguir: é a pessoa que é uma excrescência ou é o que ela faz? A resposta é que um contamina o outro. Quando alguém que se crê excelência produz excrescência, ele mesmo se torna a excrescência. Ele deixa de ser agente e vira sintoma.

Hoje em dia, quem mais exige ser chamado de excelência é quem mais entrega excrescência. Porque a verdadeira excelência nunca precisou de tratamento protocolar para se sentir grande. Ela se mede pelo rastro que deixa, não pelo ruído que faz.

E no rastro do que estamos vendo, o que sobra não é obra. É escombro.

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