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Marcelo Porto Carrero

O Ônus da Eficiência

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Marcelo Porto Carrero

O Ônus da Eficiência

É fundamental termos consciência de que nossos passos, ações e até falas podem ser interpretados de forma equivocada por aqueles que não compreendem a entrega desinteressada e a boa vontade. Para muitos, a disponibilidade e o desejo genuíno de contribuir não são vistos como atos de boa-fé ou de se fazer presente quando necessário, mas sim como movimentos motivados por outros interesses, geralmente escusos. Essa percepção distorcida é comum, especialmente entre aqueles que se sentem ofuscados por quem busca exercer tais predicados. Trata-se do ônus da eficiência.

Minha trajetória profissional trouxe essa sensibilidade a duras penas. Corroborando para as considerações acima, lembro-me de quando, exercendo assessoria em uma Secretaria de Estado, busquei, eu mesmo, agilizar processos atrasados devido à lentidão interna. Na ocasião, fui interpelado por um diretor do órgão, que classificou minha busca por agilidade como “impertinência perturbadora do ritmo natural das coisas”. Uma evidente demonstração de que, para certas pessoas, a eficiência incomoda.

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Em outro momento, este como consultor, vivi o constrangimento de ser “zeloso demais”. Pois bem, ao me trajar formalmente para a apresentação de um projeto, enquanto meu contratante optou por um estilo esportivo, as atenções que deveriam ser para ele se voltaram para mim, desde nossa recepção pela assessoria do orgão. Mesmo me esforçando para colocá-lo em evidência e passar-lhe a palavra constantemente, o jantar que se seguiu foi de cobrança e amargura. Havia um desconforto da parte dele com o destaque conferido ao projeto e à minha figura técnica, algo que fugia ao seu e ao meu controle.

Episódios como esses se repetiram em outras ocasiões, no entanto, o golpe mais recente é o que mais dói. Nele, um amigo de longa data sentiu-se desprestigiado em um trabalho onde estávamos envolvidos. O que ele não percebeu, apesar de meus inúmeros alertas, é que a eficiência sem interesse é muito diferente daquela movida por outro motivo, principalmente a vaidade.

O erro de quem se sente diminuído em ocasiões como essa, mesmo sendo proativo, reside em não compreender que o reconhecimento exige mais do que apenas “fazer”; exige discrição, responsabilidade e discernimento. A importância de ser considerado eficiente passa, obrigatoriamente, por não se tornar inconveniente.

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Aí reside o abismo entre quem busca espaço e quem ocupa espaço. De nada adianta tentar cortar caminho ou tomar a iniciativa quando não se tem a sensibilidade de entender a importância do trabalho em equipe. Infelizmente, nem todos estão prontos para ouvir que o maior obstáculo para o sucesso, muitas vezes, é a própria incapacidade de caminhar com temperança.

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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