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Marcelo Porto Carrero

A Excrescência na Excelência

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Marcelo Porto Carrero

A Excrescência na Excelência

Existem momentos em que a palavra excelência se confunde e até se funde com outra: excrescência. É quando ficamos em dúvida se é a pessoa ou o que ela faz que constitui uma excrescência, vez que vem de quem se acha excelência. Seria o caso de haver excelência em excrescência? Essa dúvida se justifica no que estamos vendo no poder público de hoje. Quem se acha excelência, na verdade, tem tudo de excrescência.

Existem momentos em que o vocabulário trai o personagem. Excelência e excrescência. Duas palavras que se olham no espelho e quase se tocam na grafia, mas que moram em universos morais opostos. E é justamente quando elas se confundem que entendemos o tempo em que vivemos.

Vamos à raiz, porque a língua não mente.

Excelência vem de excellere: elevar-se, sobressair-se, ir além. Supõe esforço, disciplina, qualidade. Excelência não se declara, se reconhece. Ela é silenciosa, porque o próprio trabalho fala por ela.

Excrescência vem de excrescere: crescer para fora, de forma desordenada, supérflua. Na medicina, é tumor, verruga, o que cresce sem função. No corpo social, é aquilo que incha sem alimentar, que ocupa espaço sem ter serventia. É o excesso que não serve, só aparece.

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O problema começa quando alguém confunde um movimento com o outro. Quando acha que crescer para fora é o mesmo que elevar-se. Quando confunde visibilidade com valor.

E é aí que a pergunta se torna cirúrgica: teríamos hoje excelência em excrescência?

Sim. E é justamente isso que estamos vendo nos poderes da República.

A pessoa que se acha excelência vive de um ritual. Ela precisa do título, do pronome, do tapete, da deferência. Ela exige ser chamada de excelência, mas age como excrescência. Não produz, se reproduz. Não serve, se serve. Não resolve, se pendura. Como toda excrescência, precisa de um corpo hospedeiro para existir: o Estado. E como toda excrescência, quando cresce demais, adoece o corpo inteiro.

A excrescência pública tem método. Tem, inclusive, excelência — mas uma excelência invertida:

Tem excelência em transformar picuinha em pauta nacional.

Tem excelência em fazer barulho e nenhum resultado.

Tem excelência em confundir opinião com conhecimento e grito com argumento.

Tem excelência em cultivar a própria imagem enquanto apodrece o entorno.

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Tem excelência em se achar indispensável, quando na verdade é apenas inamovível.

O homem verdadeiramente excelente duvida de si. O medíocre travestido de excelente tem certeza de tudo, sobretudo de sua própria grandeza. A excelência pede humildade, porque sabe o quanto falta. A excrescência pede palco, porque sem plateia ela definha.

Por isso a dúvida levantada é legítima e dolorosa. Olhamos para certos personagens e não sabemos mais distinguir: é a pessoa que é uma excrescência ou é o que ela faz? A resposta é que um contamina o outro. Quando alguém que se crê excelência produz excrescência, ele mesmo se torna a excrescência. Ele deixa de ser agente e vira sintoma.

Hoje em dia, quem mais exige ser chamado de excelência é quem mais entrega excrescência. Porque a verdadeira excelência nunca precisou de tratamento protocolar para se sentir grande. Ela se mede pelo rastro que deixa, não pelo ruído que faz.

E no rastro do que estamos vendo, o que sobra não é obra. É escombro.

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Marcelo Porto Carrero

Mensagem aos jovens incrédulos

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Mensagem aos jovens incrédulos

Estou envelhecendo. Por isso posso dizer com tranquilidade: ah, os jovens, são quase todos incrédulos. Sei disso porque estive lá, exatamente onde eles agora estão.

Aos vinte, eu não duvidava que a velhice existisse. Ela existia na minha frente, na minha casa. Meus avós estavam lá. Viviam e representavam muito para mim. Eu os amava, os respeitava. O que, no fundo, não acreditava era que um dia eu seria o velho. Que um dia seria aquele a ter que enfrentar, sozinho, a diferença entre viver e significar.

Quando se é jovem, viver basta. O significado vem de brinde. A gente mal acorda e já significa para alguém, para os pais, para os amigos, para a cidade. Na velhice, a conta se inverte. Continuamos vivendo, com saúde, com lucidez, mas a pergunta diária já não é o que vou viver hoje, e sim o que do que vivi continua significando. E para quem.

É nessa inversão que o jovem não crê. E não o culpo. Nossa cultura inteira o ensina a não crer.

Vivemos num país que esconde seus velhos. Transformamos a juventude em mercadoria e a velhice em bastidor. O velho não aparece no anúncio, não aparece no feed, a não ser como piada ou como peso. Empurramos nossos velhos para casas separadas, para assuntos separados, para horários separados. E depois nos surpreendemos quando um jovem não consegue conversar com um idoso.

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Eu faço parte de uma multidão que o Brasil ainda finge não ver. A população idosa de 60 anos ou mais cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024. Hoje, já somos 16% da população. E as projeções do IBGE indicam que em 2070 seremos quase 40%, ou seja, um em cada três brasileiros. Não somos mais uma minoria que precisa de cuidado, somos o futuro demográfico do país.

No entanto, continuamos sendo tratados como se fôssemos uma outra espécie, como alguém já escreveu. O mercado nos chama de inativos, mesmo quando um em cada quatro de nós ainda trabalha. A tecnologia nos chama de analfabetos digitais, mesmo quando somos nós que mantemos tantas famílias e tantas cidades do interior do país de pé.

O que meus avós me ensinaram, sem nunca dizerem com essas palavras, é que envelhecer não é parar de viver, é mudar a forma de significar. Eles não significavam porque eram produtivos, significavam porque eram referência. Eram o lugar onde a história da família pousava. Hoje, sou eu que tento ser esse lugar para meus netos. Não tento competir com o jovem em velocidade, tento oferecer a ele o que a velocidade não dá: consciência e continuidade.

E é por isso que a incredulidade dos jovens me preocupa. Não por vaidade. Quando um jovem não consegue se imaginar velho, ele tem dificuldade de fazer projetos longos. Para que poupar, para que cuidar da saúde, para que preservar um rio, uma rua, uma amizade de cinquenta anos, se o seu eu aos setenta anos lhe parece um estranho? O etarismo que hoje me exclui de certas conversas começou muito antes, na incredulidade daquele jovem de 20 anos que eu mesmo fui.

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Poucos se dão conta disso a ponto de aceitar. A maioria não entende o que o passar do tempo realmente faz e, por isso, não se vê lá com a clareza necessária.

Aos 72 anos, eu entendo o que ele, o tempo, faz. Ele não leva tudo embora, como os jovens temem. Ele leva o ruído e deixa o essencial. Ele me tirou a pressa de viver e me deixou a urgência de significar.

Se me permitem um conselho — os velhos servem para isso —, eu diria aos jovens: não acreditem em nós quando dizemos que envelhecer é ruim. E não acreditem no espelho que diz que vocês serão jovens para sempre. Perguntem aos seus velhos não só como eles viveram, mas o que ainda os faz querer significar hoje. Vocês vão se surpreender ao descobrir que o velho que vocês serão um dia já está esperando por vocês, com a mesma incredulidade e com a mesma esperança.

Eu estive lá. Vocês ainda chegarão aqui. Façam da vida um bom caminho!

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