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Marcelo Porto Carrero

E o BRT hein?

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Marcelo Porto Carrero

A poucos dias escrevi sobre a relação entre o BRT, sistema de transporte urbano intermunicipal que interligará as cidades de Cuiabá e Várzea Grande e o Digipare, sistema de estacionamento rotativo de Cuiabá.

Dando sequencia ao assunto, neste artigo vou falar um pouco mais sobre o BRT devido sua importância e relevância no momento em que continuamos a buscar soluções consagradas em outras regiões do Brasil e do mundo para atender nossa área metropolitana.

Neste contexto, o BRT foi concorrente direto do VLT – Veículo Leve Sobre Trilhos, na disputa que causou e ainda vem causando celeuma, vez que naquela época este último se sagrou vencedor na escolha sobre qual sistema seria adotado para transportar cidadão e torcedores na Copa do Mundo de 2014 entre as duas cidades, portanto, a mais de 15 anos.

Imagino que todos devem estar preocupados com o processo de construção do “nosso” BRT, porque é perceptível a redução do espaço para pedestres e trânsito de outros veículos se considerarmos o que vai sobrar após a conclusão de sua implantação no canteiro central da Avenida da FEB, certamente a mais importante via de ligação urbana do Vale do Rio Cuiabá, diferentemente do que estava acontecendo quando da morosa e cara implantação do VLT, tanto que esses foram parte dos motivos de sua suspeição e consequentemente suspensão.

Não se trata da defesa dessa ou daquela modalidade de transporte coletivo e sim de considerações a respeito do desenvolvimento da mobilidade urbana em um contexto mais amplo, ou seja, do que acontecerá quando o BRT ficar pronto, se ficar. Afinal, estamos de volta ao Brasil do passado não é mesmo?

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Trata-se da constatação de algo que até um leigo percebe devido ao que já pode ser visto na Avenida da FEB, onde a execução das obras de remoção da estrutura/equipamentos do VLT e a construção da infraestrutura do BRT está mais adiantada. Um gasto absurdamente inexplicável, sob o ponto de vista de quem paga impostos para tê-los revertidos em seu benefício e no desperdício acachapante a que estamos sendo submetidos por políticos, gestores e ministérios públicos inconsequentes.

Tudo indica, que quando concluídas as obras não haverá duas faixas destinadas aos veículos que nela circularão, diferentemente do que tinha sido proposto em relação aos espaços destinados às composições e demais equipamentos do VLT, tais como estações de embarque e desembarque, passarelas, sinalização, etc. Quem não se lembra?

Pois é! Então, imaginem como ficarão oa demais trechos do sistema como o da Avenida Tenente Coronel Duarte, a Prainha, considerando que sob boa parte dela existe um córrego canalizado, que agora terá que suportar espessas e pesadas faixas de concreto armado reforçado, estações, passarelas de acesso e demais equipamentos.

Sim, as passarelas não só serão necessárias, mas sim obrigatórias, porque as estações estarão no canteiro central e não ao lado das calçadas. Então, onde tiver estação o correto é haver passarela que atenda aos dois lados das vias por toda a extensão do sistema.

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E as calçadas? Como serão organizados esses espaços de uso exclusivo e necessariamente capazes de suportar o aumento do volume de transeuntes que o próprio sistema trará, uma vez que esse é seu objetivo principal, secundário e terciário, tudo junto e misturado.

Tanto nos BRT’s em operação como naqueles em implantação, uma das premissas foi e continua a ser a de implantar um projeto que contemple, de testada a testada, toda a infraestrutura das vias por onde passam, o que significa calçada, meio fio, sarjeta, faixas de tráfego para veículos , o próprio BRT, ciclovias, sinais de trânsito e canteiro central, isso se não houver outros equipamentos ou interferências urbanas a serem consideradas.

Por interferência entenda-se tudo que, além das já citadas, interage com o sistema proposto, inclusive galerias de águas pluviais, drenagem, redes de esgoto e outras instalações subterrâneas ou aéreas, como redes de comunicação, energia elétrica, etc.

Será mais um absurdo inaceitável ver uma obra dessa magnitude deixar tudo isso para depois, ou seja, um tempo que nunca virá.

PS – Os dados que serviram para dimensionar o VLT e o BRT da época da Copa já têm mais de 15 anos estando, portanto, ultrapassados. Teriam sido atualizadas as pesquisas OD (Origem-Destino) para redimensionar o atual BRT? – Pergunta dirigida a todas as instâncias citadas anteriormente.

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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