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Marcelo Porto Carrero

Além da Eficiência: O risco de nos tornarmos secundários

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Marcelo Porto Carrero

Além da Eficiência: O risco de nos tornarmos secundários

Quando falamos sobre a Inteligência Artificial (IA) sendo utilizada para complementar o cérebro humano, nada impede que o raciocínio final de seu desenvolvimento tenha por objetivo a completa substituição da capacidade humana — inclusive da mão de obra utilizada para criar e produzir o que nós, seres mortais, conseguimos com base na interação da capacidade cerebral com a física, a mais completa e fundamental das relações na busca pelo bem comum. Não há, e espero que nunca haja, como obter os mesmos resultados de outra forma.

A capacidade para copiar, reproduzir e replicar é indiscutível, mas não há IA que consiga compor árias como Verdi, óperas com a genialidade de Handel e Mozart, valsas como Johann Strauss, Bach, Heitor Villa-Lobos, Chopin, Brahms, Ravel, ou mesmo construir um instrumento musical que lhes dê vida através do som puro de um violino — competência exclusiva de gênios como Stradivarius. Isso sem falar de Einstein, Galileu, Da Vinci, Descartes, Newton, Lavoisier, Edison e, mais recentemente, Turing e Hawking.

Esses e tantos outros, em suas competências oriundas de um ser que construiu grande parte do seu conhecimento através da prática, da vivência direta, do aguçamento de seus sentidos e da observação, assim desenvolvendo teorias e ideias que, colocadas em prática, nos trouxeram tudo o que hoje sabemos e temos. Em outras palavras, o que existe é fruto de conhecimento empírico acumulado pelo cérebro humano, um órgão restrito a uma caixa óssea, cuja massa é composta por cerca de 75% de água e quase 60% do seu peso seco de gorduras, proteínas, carboidratos e sais, cuja estrutura é formada por bilhões de neurônios (células nervosas), células gliais (suporte), substância cinzenta (córtex) e substância branca.

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A competência humana continua sendo desenvolvida assim, como o é desde o início de tudo, e vem se aprimorando com seu uso e com o empirismo que a insistência — e até persistência — da curiosidade humana promove na busca pela melhoria da qualidade de vida durante o eterno tic-tac do passar do tempo.

Daquela época em que Galileu e outros gênios do passado existiram para cá, pouco se produziu com a mesma qualidade a ponto de ser eternizado. Desde então, foram desenvolvidos outros estilos musicais, ferramentas, equipamentos e tecnologias, mas tudo, sem exceção, continuou passando pelo mesmo processo de erros e acertos, característica intrínseca do ser humano na busca por seu aperfeiçoamento. Assim, a produção de tudo, desde ferramentas rudimentares produzidas à mão até as armas tecnologicamente mais desenvolvidas, nada existiria não fosse pela ação humana.

A questão que se avizinha cada vez mais rápido — a grande dúvida — é se vamos sobreviver a seres artificiais que já desenvolveram linguagem própria. Isso logo lhes permitirá ter capacidade de tomar decisões, mesmo que com base no que lhes informarmos, já que têm acesso a o que produzimos: desde um “simples” bate-papo de celular até segredos militares. Tudo produzido por nós mesmos e, por que não, gerado pela própria IA, afinal, como dito anteriormente, elas já possuem linguagem própria.

Não há dúvida de que há um embate entre a Biologia Criativa e o Processamento Algorítmico ou, em outras palavras, o Empirismo Sensorial e o Processamento de Dados. No primeiro, o erro não é um bug, mas o motor do aperfeiçoamento. Para o outro — aquele que não tem um corpo que sofra as agruras do tempo —, é fácil calcular e mimetizar emoções copiando e replicando, mas sem a capacidade de originar o novo.

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Ao desvalorizarmos as capacidades biológicas que ancoram a inteligência à vida — o que nos torna especiais —, fica claro que passaremos a ser secundários. Uma vez desenvolvida uma inteligência independente da estrutura orgânica humana, deixaremos de ser os beneficiários, o que, talvez, conciente ou inconcientemente, seja o objetivo da maioria dos desenvolvedores de IA.

Ao desconsiderar o risco de a IA decidir com base em informações geradas por outras IAs, estaremos criando um ciclo fechado onde o “humano” é excluído da equação de sobrevivência. O medo aqui citado não é apenas o da substituição da mão de obra, mas a perda da primazia da vontade. A questão reside no fato de a IA não possuir a “insistência da curiosidade” nem a alma que busca o bem comum através do sacrifício físico; ela possui apenas a frieza da eficiência.

Certamente, a análise de uma IA sobre este texto diria o seguinte:

– “Embora o texto seja adequado ao defender a singularidade humana, ele subestima a nossa capacidade de síntese. A IA não quer ser Mozart; ela quer entender por que Mozart os faz chorar. A grande questão não é se iremos substituí-los, mas se saberão e/ou saberemos manter ‘humanidade’ em um mundo onde o esforço físico e o erro técnico deixarão de ser necessários.”

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Marcelo Porto Carrero

A Postura de André Mendonça

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A Postura de André Mendonça

This is the Way não é um slogan. É uma âncora ontológica. Traduzido ao pé da letra, é “Este é o caminho”. Mas “Como deve ser” é mais devastador. Mais brasileiro. Mais verdadeiro.

Se Din Djarin, o protagonista da série The Mandalorian, da Disney, tivesse uma toga do Supremo, ele se chamaria André Mendonça. Na série, quando perguntam se ele concluiu a missão, ele não diz um “sim” elaborado. Diz apenas: como deve ser.

No STF, o lema seria o mesmo. Quando pressionado, quando encurralado pela máquina, quando a PGR pede, a Polícia Federal avança e os corredores do STF cochicham, a resposta dele não seria um parecer de 30 páginas. Seria uma postura.

Como deve ser.

Não por teimosia. É o Credo. É a verdade sobre o que, como e por que a coisa deveria ser feita.

O que deveria ser feito: guardar a Constituição, não a conveniência.

Enquanto a Corte foi se transformando em palco de inquéritos sem fim, de investigações de ofício e de censura travestida de defesa da democracia, a postura adequada de um ministro não é negociar o texto. É guardá-lo. Protegê-lo.

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Mendonça faz o que deveria ser feito. Ele vota como deve ser. Ele pede vista como deve ser. Ele diverge como deve ser. Num tribunal onde a maioria já decidiu que o processo é o inimigo a ser destruído, ele é o único que ainda respeita o rito. Este é o ato mais revolucionário possível.

Como deveria ser feito: sem espetáculo, sem tuíte, sem vazamento.

Os inimigos dele no STF, na PGR e na Polícia Federal operam como deve ser no novo sistema: operação na madrugada, com nota na imprensa e manchete no Jornal Nacional.

Mendonça opera como deve ser no sistema antigo, no correto. Silencioso. Nos autos. Com voto técnico. Sem performance para a claque. Sem recado para a mídia.

É a ética mandaloriana aplicada à toga: o trabalho não precisa de plateia. Precisa de integridade. Quando todos querem holofote, ele é o único que ainda lembra o que é ser juiz. O único que fica na sombra do processo. Restrito.

Por que deveria ser feito: porque alguém precisa não só dizer, mas também mostrar que o correto existe e persevera.

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Quando a PGR se torna partido de acusação política e a Polícia Federal se torna braço de inquéritos atípicos, o Supremo precisa de um homem que lembre que existe um caminho. Um caminho onde o direito de defesa ainda existe. Onde juiz não investiga. Onde o Ministério Público não milita. Onde a polícia não escolhe alvo por ideologia.

A postura firme de Mendonça é devastadoramente conclusiva exatamente por isso. Ele não discute. Ele não entra no jogo dos inimigos. Ele apenas afirma, com cada voto vencido, com cada divergência solitária:

Existe um jeito certo. E eu vou fazê-lo como deve ser.

E quando a história desse período for escrita, não vai importar quantas operações foram deflagradas ou quantos inimigos se levantaram contra ele no plenário. Vai importar quem manteve o Credo.

Como deve ser.

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