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Marcelo Porto Carrero

Mensagem aos jovens incrédulos

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Marcelo Porto Carrero

Mensagem aos jovens incrédulos

Estou envelhecendo. Por isso posso dizer com tranquilidade: ah, os jovens, são quase todos incrédulos. Sei disso porque estive lá, exatamente onde eles agora estão.

Aos vinte, eu não duvidava que a velhice existisse. Ela existia na minha frente, na minha casa. Meus avós estavam lá. Viviam e representavam muito para mim. Eu os amava, os respeitava. O que, no fundo, não acreditava era que um dia eu seria o velho. Que um dia seria aquele a ter que enfrentar, sozinho, a diferença entre viver e significar.

Quando se é jovem, viver basta. O significado vem de brinde. A gente mal acorda e já significa para alguém, para os pais, para os amigos, para a cidade. Na velhice, a conta se inverte. Continuamos vivendo, com saúde, com lucidez, mas a pergunta diária já não é o que vou viver hoje, e sim o que do que vivi continua significando. E para quem.

É nessa inversão que o jovem não crê. E não o culpo. Nossa cultura inteira o ensina a não crer.

Vivemos num país que esconde seus velhos. Transformamos a juventude em mercadoria e a velhice em bastidor. O velho não aparece no anúncio, não aparece no feed, a não ser como piada ou como peso. Empurramos nossos velhos para casas separadas, para assuntos separados, para horários separados. E depois nos surpreendemos quando um jovem não consegue conversar com um idoso.

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Eu faço parte de uma multidão que o Brasil ainda finge não ver. A população idosa de 60 anos ou mais cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024. Hoje, já somos 16% da população. E as projeções do IBGE indicam que em 2070 seremos quase 40%, ou seja, um em cada três brasileiros. Não somos mais uma minoria que precisa de cuidado, somos o futuro demográfico do país.

No entanto, continuamos sendo tratados como se fôssemos uma outra espécie, como alguém já escreveu. O mercado nos chama de inativos, mesmo quando um em cada quatro de nós ainda trabalha. A tecnologia nos chama de analfabetos digitais, mesmo quando somos nós que mantemos tantas famílias e tantas cidades do interior do país de pé.

O que meus avós me ensinaram, sem nunca dizerem com essas palavras, é que envelhecer não é parar de viver, é mudar a forma de significar. Eles não significavam porque eram produtivos, significavam porque eram referência. Eram o lugar onde a história da família pousava. Hoje, sou eu que tento ser esse lugar para meus netos. Não tento competir com o jovem em velocidade, tento oferecer a ele o que a velocidade não dá: consciência e continuidade.

E é por isso que a incredulidade dos jovens me preocupa. Não por vaidade. Quando um jovem não consegue se imaginar velho, ele tem dificuldade de fazer projetos longos. Para que poupar, para que cuidar da saúde, para que preservar um rio, uma rua, uma amizade de cinquenta anos, se o seu eu aos setenta anos lhe parece um estranho? O etarismo que hoje me exclui de certas conversas começou muito antes, na incredulidade daquele jovem de 20 anos que eu mesmo fui.

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Poucos se dão conta disso a ponto de aceitar. A maioria não entende o que o passar do tempo realmente faz e, por isso, não se vê lá com a clareza necessária.

Aos 72 anos, eu entendo o que ele, o tempo, faz. Ele não leva tudo embora, como os jovens temem. Ele leva o ruído e deixa o essencial. Ele me tirou a pressa de viver e me deixou a urgência de significar.

Se me permitem um conselho — os velhos servem para isso —, eu diria aos jovens: não acreditem em nós quando dizemos que envelhecer é ruim. E não acreditem no espelho que diz que vocês serão jovens para sempre. Perguntem aos seus velhos não só como eles viveram, mas o que ainda os faz querer significar hoje. Vocês vão se surpreender ao descobrir que o velho que vocês serão um dia já está esperando por vocês, com a mesma incredulidade e com a mesma esperança.

Eu estive lá. Vocês ainda chegarão aqui. Façam da vida um bom caminho!

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Marcelo Porto Carrero

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Em qualquer calendário, em outra conta qualquer, o treze seria apenas isso. Um dia ordinário no meio do mês. Mais um ano de vida que se completa com sopro de velinhas. Uma medida de feira, uma dúzia e mais um, a hora de virada onde o relógio marca o início da tarde. Um número como outro qualquer, sem cheiro, sem cor, sem ideologia. Um conceito abstrato inventado para que a humanidade pudesse organizar o caos dos dias.

Na verdade, isso pouco importa agora.

A matemática perdeu essa batalha porque o treze deixou de ser número. Foi sequestrado, arrastado para longe. Deixou de pertencer à ciência exata para pertencer ao palanque, ao panfleto que entope o bueiro após o domingo de votação. Virou crachá, virou senha de acesso para um projeto que se apresenta como a voz do povo, mas que coleciona no seu rastro um histórico de divisão profunda. É uma sintonia que opera na frequência do “nós contra eles”, que se alimenta da urgência e da esperança legítima de quem tem fome, para devolver, no fim do ciclo, a moeda fria do cinismo e do pragmatismo de gabinete. As promessas grandiosas, outrora vestidas de utopia, hoje servem apenas como blindagem para os erros de sempre.

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O curioso é que o treze sempre carregou uma bagagem pesada, mas nunca precisou ser banido por ela. Ele sobreviveu aos séculos. Foi o azar mítico da sexta-feira que assombra os supersticiosos; foi o mistério e a traição latente na mesa da Última Ceia; foi o tabu arquitetônico em prédio moderno que salta do 12º para o 14º andar, como se pudesse enganar a gravidade omitindo um andar. Tudo isso, porém, era folclore inofensivo. Uma herança cultural que ninguém, no fundo, levava a sério a ponto de sangrar por ela. O folclore nunca fechou estradas, nunca ditou o orçamento de uma nação, nunca dividiu famílias na ceia de Natal, nem transformou amigos de infância em inimigos mortais.

A verdade é que tanto mal foi feito sob a sombra desse símbolo, tanta narrativa ficcional foi erguida para justificá-lo, tanta culpa foi terceirizada para as “forças ocultas” ou para a “herança maldita”, que o algarismo em si ficou quimicamente contaminado. Houve uma mutação genética na escrita. Hoje, ao riscar o 1 e o 3 no papel, o cidadão não vê mais uma quantidade; ele é forçado a tomar uma posição. Não se lê o dado estatístico, lê-se o manifesto. O símbolo engoliu a substância. Quem olha para ele com adoração vê um amuleto sagrado, imune a críticas; quem olha com repúdio vê a síntese de uma decadência moral. Ninguém vê apenas o número.

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Por isso a provocação é mais do que válida: o treze deveria ser formalmente excluído dos algarismos humanos. Riscado da lousa escolar. Não por uma nova onda de superstição medieval, mas por um cansaço puramente contemporâneo. Por uma necessidade urgente de higiene simbólica. É o esgotamento de uma sociedade que não aguenta mais ver a realidade ser distorcida.

Enquanto ele continuar a ser usado como escudo político-ideológico por quem tanto mal causou e tanta frustração semeou, permanecerá no exílio da sua própria natureza. Que o tempo — esse mestre em limpar as manchas da história — faça o seu trabalho. E que um dia, num futuro pacificado, o treze possa finalmente voltar para casa. Para ser, de novo, apenas o número que vem depois do doze.

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