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Marcelo Porto Carrero

Por que você vota?

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Marcelo Porto Carrero

Por que você vota?

 Não confunda o “por que” escrito de forma separada, como o utilizado na pergunta acima, com o “porque” junto, que se aplica às respostas.

Ao considerar a primeira das situações, estamos pensando no futuro, no que queremos para Cuiabá. Já a outra requer que usemos o bom senso na análise detalhada da situação em que estamos, para então decidir se queremos a continuidade do que aí está ou se vamos impedi-la de se perpetuar.

O voto deixou de ser uma retribuição à amizade ou ao favorecimento para ser validação de esperança.

O futuro – tão evocado pelo pensamento progressista – está em uma encruzilhada, onde os desinformados confundem o avanço no caminho do progresso com a implantação da repressão – um retrocesso que dizem ter vivido no passado ao proporem a implantação de um tipo de governo que, sob o manto de progressismo sistêmico, esconde sua relativização da liberdade através da censura de opinião; confundem gestão técnica com compartilhamento político; administração de receitas e despesas com aumento de arrecadação e gastos; gerência honesta e realista com compromissos inexequíveis.

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Já passou da hora de darmos ouvidos às oligarquias que até pouco tempo dominaram o cenário político com seus mandos e desmandos. São eles os que querem o continuísmo maniqueísta que divide o mundo entre o bem e o mal. O que, traduzido em fatos, significa o bem deles e nosso mal.

Chega do proselitismo ideológico da esquerda, que, desafortunada de bom senso, tenta cooptar e manter submisso o funcionalismo público consciente – por isso mesmo produtivo – como massa de manobra política para se perpetuar em um tipo de poder, que, ao invés de alcançarem através de realizações e propostas, o tomam por vias indecifráveis.

É hora da acabar com a persistente situação de manipulação do erário público em beneficio próprio, de terceiros apadrinhados e coniventes aquinhoados.

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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