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Marcelo Porto Carrero

Não Pare

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Marcelo Porto Carrero

Não pare

Há pessoas que, ao se aposentar, entendem que o ócio é um prêmio do qual devem apenas desfrutar como uma recompensa merecida pelos prazeres que deixaram de usufruir durante a fase mais produtiva de suas vidas. O sociólogo Domenico De Masi, em seu livro “O Ócio Criativo” e em outros sobre o mesmo tema, analisa questões referentes à sociedade pós-industrial, à globalização, ao pouco uso da mão de obra tradicional e ao desemprego devido ao desenvolvimento tecnológico, além do surgimento de novas ideologias. Ele propõe, então, um novo modelo social que deve levar em consideração a necessária complementariedade entre o trabalho, o estudo e o lazer, considerando, principalmente, a crescente disponibilidade de tempo devido ao avanço das exigências sociais, cada vez mais determinantes nas reduções das jornadas de trabalho.

Resumindo, De Masi considera que os indivíduos e a sociedade devem passar por transformações que privilegiem a satisfação de necessidades específicas, como a introspecção, o convívio, a amizade, o amor e o entretenimento. Entretanto, os avanços propostos por ele, muitos já colocados em prática, se aplicam a indivíduos que estejam ativos, o que não se dá em relação àqueles que se aposentam. Essas pessoas, em grande parte, procuram se afastar de compromissos, horários e responsabilidades. De certa forma, diferentemente do que o sociólogo sugere, entendem o ócio como um direito adquirido, do qual querem desfrutar incondicionalmente.

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Daí a diferença percebida em algumas reações à aposentadoria, que, ao invés de “ir devagar”, sugerem somente “vagar”, repousar em um sentido mais amplo, exceto no que se refere à família, ao lazer e às amizades.

Tanto para quem trabalha como para quem se aposenta, exercitar o cérebro é como estar permanentemente criando ligações entre os neurônios, atividade semelhante a fazer exercícios físicos para manter os músculos fortalecidos e, assim, sustentar os órgãos e a estrutura óssea. No caso do cérebro, os exercícios devem ser feitos para sustentar o raciocínio, a memória e outras práticas relacionadas à lucidez, capacidades que vão sendo reduzidas naturalmente com o avançar da idade.

No cérebro, não criamos músculos; promovemos ligações e ocupamos os espaços vazios que a falta de atividade pode criar devido à redução da dinâmica intelectual. Um exemplo: não basta ler; ler mantém a atividade, é preciso escrever. Escrever ativa a criatividade e, com isso, cria novas ligações, ocupando espaço.

Portanto, vamos desenvolver novas atividades, sejam elas físicas ou mentais, de maneira a tornar o ócio não a razão para a inação, mas um princípio que nos leve a ocupar de forma produtiva o tempo que nos resta de vida, em permanente busca por saúde, interação e convivência.
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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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