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Marcelo Porto Carrero

Um agradecimento especial.

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Marcelo Porto Carrero

Um agradecimento especial.

Meu pai, José Afonso Portocarrero, foi daquelas pessoas que não se encontram facilmente. Inteligência e perspicácia eram predicados que se somavam à sua personalidade ímpar, tamanha a capacidade que possuía de reagir rapidamente aos desafios que encontrava no extenso tempo em que nos deu a bênção de sua presença. Papai faleceu aos 97 anos, não sem antes deixar um legado de realizações invejáveis no que se refere à arte de gerar benefícios em todos os lugares por onde esteve e às pessoas que encontrou pelo caminho.

O que me faz falar mais uma vez sobre ele é uma gravação recebida, na voz de um amigo, que trouxe à tona a saudade dos momentos que tive, ou melhor, – que muitos dos que o conheceram e se lembram de sua essência extraordinariamente positiva, fruto de um trabalho que incluiu características reconhecidamente marcantes como a dedicação, a honestidade e competência.

Na mensagem, a pessoa cuja amizade também passou a ser desfrutada por mim e meus irmãos fala sobre a forma como se conheceram e da consideração que desenvolveram — um pelo outro — com o passar do tempo.

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Esse futuro amigo, um ser humano de personalidade marcante e com idade para ser seu filho, fez um trabalho de auditoria contratada tão eficiente que culminou com o convite de meu pai, em 1978 — na época, Presidente do BEMAT — para que aquele jovem assumisse o cargo de Diretor Executivo do Centro de Assistência Gerencial do Estado de Mato Grosso (CEAG/MT), ligado ao CEBRAE NACIONAL — Centro Brasileiro de Apoio à Pequena e Média Empresa, uma instituição do setor público. Cabe ainda esclarecer que, a partir da Constituição de 1988, devido às novas condições de atuação (1990), a instituição passou para o setor privado, já como Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE/MT).

Poucas vezes ouvi palavras tão carinhosas e, certamente, verdadeiras sobre como a amizade e o respeito mútuo entre eles começaram e permaneceram vivos.

É uma pena não ter recebido essa emocionante mensagem antes de publicar meu livro, Sementes de Meu Pai. Se isso tivesse acontecido a tempo, a história certamente faria parte das lembranças lá existentes, e suas palavras ficariam transcritas entre aquelas deixadas por filhos, amigos e parentes nos preâmbulos da publicação.

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Em agradecimento ao Administrador de Empresas José Guilherme Barbosa Ribeiro.

PS – Até 1998, o CEAG-MT esteve vinculado ao governo do estado de Mato Grosso através do BEMAT

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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