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Marcelo Porto Carrero

A fé e o medo

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Marcelo Porto Carrero

O principal equívoco da igreja católica é não entender que a fé reside apenas e tão somente em Deus e que ela deveria ser (de novo, apenas e tão somente) uma instituição criada para congregar pessoas que creem Nele e em seu dileto filho Jesus Cristo.

É o que está acontecendo com outras instituições que também passaram a dar mais ênfase à arrecadação do dízimo que para a fé religiosa de quem as frequenta.

Isso está ocorrendo desde que passou a dar importância ao material em detrimento do espiritual, momento em que começou a perder este importante elo de ligação com o Criador.

A meu ver, essa má orientação e o consequente afastamento de sua razão de existir está causando perda de relevância em relação ao cristianismo original.

É difícil encontrar alguém que tenha se convertido ao cristianismo católico devido às mudanças propostas através de novas teologias, a exemplo dessa que se auto interpreta como sendo da libertação.

O que se percebe, estatisticamente falando, é a sensível redução no número de cristãos seguindo essa, digamos, nova ordem, que aos poucos vai se apossando do tradicional catolicismo. Se estão tão certos de sua orientação filosófica, porque não fundam a sua? Esta questão surge porque, de outra forma, já a teriam criado e aberto mão do dízimo dos católicos conservadores que tanto combatem. Assim seria, se fossem o que dizem ser mas não são, porque não vão largar aquele enorme patrimônio humano, físico e financeiro devido, entre outras coisas, seu maior comprometimento com o material que com o espiritual.

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Esse movimento, percebido pelos gnósticos nos primórdios do cristianismo e por Lutero lá atrás, acabou por oportunizar que outras instituições cristãs surgissem no vazio deixado pela igreja católica quando de sua guinada progressista na medida em que a fé, sua principal coluna de sustentação, passou a dividir espaço com o medo, neste caso representado pelo materialismo. Vide a pompa e riqueza do Vaticano, uma cidade-estado, algo inimaginável, se não filosoficamente inconcebível para os primórdios do que se tornou a igreja católica.

Para bem complementar o raciocínio do parágrafo anterior, é importante salientar que a fé e o medo são dois sentimentos que não coexistem devido o primeiro significar a existência de amor e o segundo o desespero de sua ausência.

Quando a sabedoria popular diz que a fé remove montanhas, na verdade está ensinando, como Maomé o fez, onde não é a montanha que vem até nós e sim que nós devemos ir até a montanha, ou seja, a razão deve superar o desejo, e isso só se dará pelo crescimento espiritual.

O crescimento material é passageiro e dura apenas uma existência física, já o espiritual é conhecimento interior, aprimoramento que evolui a cada tempo terreno e nos acompanha na medida em que buscamos a perfeição em Deus.

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O tempo sempre será senhor da razão, entretanto, o materialista o usa para enriquecer o corpo enquanto o espiritualista o tem para enriquecer a alma.

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Marcelo Porto Carrero

A Excrescência na Excelência

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A Excrescência na Excelência

Existem momentos em que a palavra excelência se confunde e até se funde com outra: excrescência. É quando ficamos em dúvida se é a pessoa ou o que ela faz que constitui uma excrescência, vez que vem de quem se acha excelência. Seria o caso de haver excelência em excrescência? Essa dúvida se justifica no que estamos vendo no poder público de hoje. Quem se acha excelência, na verdade, tem tudo de excrescência.

Existem momentos em que o vocabulário trai o personagem. Excelência e excrescência. Duas palavras que se olham no espelho e quase se tocam na grafia, mas que moram em universos morais opostos. E é justamente quando elas se confundem que entendemos o tempo em que vivemos.

Vamos à raiz, porque a língua não mente.

Excelência vem de excellere: elevar-se, sobressair-se, ir além. Supõe esforço, disciplina, qualidade. Excelência não se declara, se reconhece. Ela é silenciosa, porque o próprio trabalho fala por ela.

Excrescência vem de excrescere: crescer para fora, de forma desordenada, supérflua. Na medicina, é tumor, verruga, o que cresce sem função. No corpo social, é aquilo que incha sem alimentar, que ocupa espaço sem ter serventia. É o excesso que não serve, só aparece.

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O problema começa quando alguém confunde um movimento com o outro. Quando acha que crescer para fora é o mesmo que elevar-se. Quando confunde visibilidade com valor.

E é aí que a pergunta se torna cirúrgica: teríamos hoje excelência em excrescência?

Sim. E é justamente isso que estamos vendo nos poderes da República.

A pessoa que se acha excelência vive de um ritual. Ela precisa do título, do pronome, do tapete, da deferência. Ela exige ser chamada de excelência, mas age como excrescência. Não produz, se reproduz. Não serve, se serve. Não resolve, se pendura. Como toda excrescência, precisa de um corpo hospedeiro para existir: o Estado. E como toda excrescência, quando cresce demais, adoece o corpo inteiro.

A excrescência pública tem método. Tem, inclusive, excelência — mas uma excelência invertida:

Tem excelência em transformar picuinha em pauta nacional.

Tem excelência em fazer barulho e nenhum resultado.

Tem excelência em confundir opinião com conhecimento e grito com argumento.

Tem excelência em cultivar a própria imagem enquanto apodrece o entorno.

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Tem excelência em se achar indispensável, quando na verdade é apenas inamovível.

O homem verdadeiramente excelente duvida de si. O medíocre travestido de excelente tem certeza de tudo, sobretudo de sua própria grandeza. A excelência pede humildade, porque sabe o quanto falta. A excrescência pede palco, porque sem plateia ela definha.

Por isso a dúvida levantada é legítima e dolorosa. Olhamos para certos personagens e não sabemos mais distinguir: é a pessoa que é uma excrescência ou é o que ela faz? A resposta é que um contamina o outro. Quando alguém que se crê excelência produz excrescência, ele mesmo se torna a excrescência. Ele deixa de ser agente e vira sintoma.

Hoje em dia, quem mais exige ser chamado de excelência é quem mais entrega excrescência. Porque a verdadeira excelência nunca precisou de tratamento protocolar para se sentir grande. Ela se mede pelo rastro que deixa, não pelo ruído que faz.

E no rastro do que estamos vendo, o que sobra não é obra. É escombro.

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