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Marcelo Porto Carrero

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Marcelo Porto Carrero

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Em qualquer calendário, em outra conta qualquer, o treze seria apenas isso. Um dia ordinário no meio do mês. Mais um ano de vida que se completa com sopro de velinhas. Uma medida de feira, uma dúzia e mais um, a hora de virada onde o relógio marca o início da tarde. Um número como outro qualquer, sem cheiro, sem cor, sem ideologia. Um conceito abstrato inventado para que a humanidade pudesse organizar o caos dos dias.

Na verdade, isso pouco importa agora.

A matemática perdeu essa batalha porque o treze deixou de ser número. Foi sequestrado, arrastado para longe. Deixou de pertencer à ciência exata para pertencer ao palanque, ao panfleto que entope o bueiro após o domingo de votação. Virou crachá, virou senha de acesso para um projeto que se apresenta como a voz do povo, mas que coleciona no seu rastro um histórico de divisão profunda. É uma sintonia que opera na frequência do “nós contra eles”, que se alimenta da urgência e da esperança legítima de quem tem fome, para devolver, no fim do ciclo, a moeda fria do cinismo e do pragmatismo de gabinete. As promessas grandiosas, outrora vestidas de utopia, hoje servem apenas como blindagem para os erros de sempre.

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O curioso é que o treze sempre carregou uma bagagem pesada, mas nunca precisou ser banido por ela. Ele sobreviveu aos séculos. Foi o azar mítico da sexta-feira que assombra os supersticiosos; foi o mistério e a traição latente na mesa da Última Ceia; foi o tabu arquitetônico em prédio moderno que salta do 12º para o 14º andar, como se pudesse enganar a gravidade omitindo um andar. Tudo isso, porém, era folclore inofensivo. Uma herança cultural que ninguém, no fundo, levava a sério a ponto de sangrar por ela. O folclore nunca fechou estradas, nunca ditou o orçamento de uma nação, nunca dividiu famílias na ceia de Natal, nem transformou amigos de infância em inimigos mortais.

A verdade é que tanto mal foi feito sob a sombra desse símbolo, tanta narrativa ficcional foi erguida para justificá-lo, tanta culpa foi terceirizada para as “forças ocultas” ou para a “herança maldita”, que o algarismo em si ficou quimicamente contaminado. Houve uma mutação genética na escrita. Hoje, ao riscar o 1 e o 3 no papel, o cidadão não vê mais uma quantidade; ele é forçado a tomar uma posição. Não se lê o dado estatístico, lê-se o manifesto. O símbolo engoliu a substância. Quem olha para ele com adoração vê um amuleto sagrado, imune a críticas; quem olha com repúdio vê a síntese de uma decadência moral. Ninguém vê apenas o número.

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Por isso a provocação é mais do que válida: o treze deveria ser formalmente excluído dos algarismos humanos. Riscado da lousa escolar. Não por uma nova onda de superstição medieval, mas por um cansaço puramente contemporâneo. Por uma necessidade urgente de higiene simbólica. É o esgotamento de uma sociedade que não aguenta mais ver a realidade ser distorcida.

Enquanto ele continuar a ser usado como escudo político-ideológico por quem tanto mal causou e tanta frustração semeou, permanecerá no exílio da sua própria natureza. Que o tempo — esse mestre em limpar as manchas da história — faça o seu trabalho. E que um dia, num futuro pacificado, o treze possa finalmente voltar para casa. Para ser, de novo, apenas o número que vem depois do doze.

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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