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Marcelo Porto Carrero

Pontos, vírgulas, reticências e muito mais

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Marcelo Porto Carrero

Pontos, vírgulas, reticências e muito mais

Que bom seria pudéssemos tocar nossas vidas como as descrevemos, ou melhor, como as escrevemos.

Como acontece com a utilização da vírgula, bastaria dar uma ligeira pausa entre os problemas para separá-los adequadamente e assim evitar que suas ambiguidades tornem nossa jornada ainda mais imprevisível. Afinal, todos sabemos que a utilização inadequada da vírgula e a desatenção com as palavras costumam desvirtuar as verdadeiras intenções.

Da mesma maneira, quando nos depararmos com eventos, sejam eles problemáticos ou não, deveríamos controlar nossas interferências utilizando critérios ortográficos como os pontos continuativos, até podermos desenvolver todo nosso entendimento sobre o que acontece de maneira a rematar nossa participação adequadamente com um ponto parágrafo. Isto feito, poderíamos encerrar o desenrolar do contexto utilizando um definitivo ponto final.

Quem dera fossem somente esses dois os sinais ortográficos que auxiliam a escrita, a leitura e a interpretação das situações e vicissitudes da vida. Ledo engano, a eles se juntam o ponto de exclamação, o ponto de interrogação, as reticências, o ponto e vírgula, os dois-pontos, o travessão, as aspas e os parênteses.

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Quanta interrogação é necessária para dar entendimento a acontecimentos que variam de acordo com a complexibilidade do que estamos vivenciando? O que dizer então das necessidades de usarmos da exclamação em nossas demonstrações de alegria, dor, entusiasmo, raiva e surpresa entre tantas outras ocorrências.

Como explicar momentos nos quais precisamos pausar o enunciado utilizando os três pontos das reticências, que na realidade apenas traduzem omissões por não querermos revelar emoções demasiadas, insinuações, etc.; os necessários dois pontos e travessão, utilizados nas locuções e mudanças dos nosso interlocutores; as aspas, que mais parecem vírgulas suspensas, nas tentativas de destacar citações e gírias comumente utilizadas; o que fazer então, quando precisamos enfrentar situações que exigem considerações assessórias tais como os parênteses usados nas observações, adendos e outras curiosidades que vão aparecendo pela nossa frente?

E mais, para transparecer corretamente nossas limitações em relação aos sinais ortográficos, ainda existem seus acessórios, quais sejam: os acentos, as notações léxicas e os sinais de ligação. Sobre os quais não haverá considerações, para não tornar ainda mais enfadonha esta digressão literária.

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Seria bem mais fácil lidar com a necessidade de reagirmos a eventos que, por si só, não determinam os efeitos que recaem sobre quem por eles seja atingido, se conseguíssemos mudar a forma como os entendemos. Se boas, ruins ou indiferentes, são as reações que definem o que acontecerá conosco e não os fatos.

A consequente reação ao dano não está em sua origem e sim na maneira como respondemos a ele.

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Marcelo Porto Carrero

A Excrescência na Excelência

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A Excrescência na Excelência

Existem momentos em que a palavra excelência se confunde e até se funde com outra: excrescência. É quando ficamos em dúvida se é a pessoa ou o que ela faz que constitui uma excrescência, vez que vem de quem se acha excelência. Seria o caso de haver excelência em excrescência? Essa dúvida se justifica no que estamos vendo no poder público de hoje. Quem se acha excelência, na verdade, tem tudo de excrescência.

Existem momentos em que o vocabulário trai o personagem. Excelência e excrescência. Duas palavras que se olham no espelho e quase se tocam na grafia, mas que moram em universos morais opostos. E é justamente quando elas se confundem que entendemos o tempo em que vivemos.

Vamos à raiz, porque a língua não mente.

Excelência vem de excellere: elevar-se, sobressair-se, ir além. Supõe esforço, disciplina, qualidade. Excelência não se declara, se reconhece. Ela é silenciosa, porque o próprio trabalho fala por ela.

Excrescência vem de excrescere: crescer para fora, de forma desordenada, supérflua. Na medicina, é tumor, verruga, o que cresce sem função. No corpo social, é aquilo que incha sem alimentar, que ocupa espaço sem ter serventia. É o excesso que não serve, só aparece.

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O problema começa quando alguém confunde um movimento com o outro. Quando acha que crescer para fora é o mesmo que elevar-se. Quando confunde visibilidade com valor.

E é aí que a pergunta se torna cirúrgica: teríamos hoje excelência em excrescência?

Sim. E é justamente isso que estamos vendo nos poderes da República.

A pessoa que se acha excelência vive de um ritual. Ela precisa do título, do pronome, do tapete, da deferência. Ela exige ser chamada de excelência, mas age como excrescência. Não produz, se reproduz. Não serve, se serve. Não resolve, se pendura. Como toda excrescência, precisa de um corpo hospedeiro para existir: o Estado. E como toda excrescência, quando cresce demais, adoece o corpo inteiro.

A excrescência pública tem método. Tem, inclusive, excelência — mas uma excelência invertida:

Tem excelência em transformar picuinha em pauta nacional.

Tem excelência em fazer barulho e nenhum resultado.

Tem excelência em confundir opinião com conhecimento e grito com argumento.

Tem excelência em cultivar a própria imagem enquanto apodrece o entorno.

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Tem excelência em se achar indispensável, quando na verdade é apenas inamovível.

O homem verdadeiramente excelente duvida de si. O medíocre travestido de excelente tem certeza de tudo, sobretudo de sua própria grandeza. A excelência pede humildade, porque sabe o quanto falta. A excrescência pede palco, porque sem plateia ela definha.

Por isso a dúvida levantada é legítima e dolorosa. Olhamos para certos personagens e não sabemos mais distinguir: é a pessoa que é uma excrescência ou é o que ela faz? A resposta é que um contamina o outro. Quando alguém que se crê excelência produz excrescência, ele mesmo se torna a excrescência. Ele deixa de ser agente e vira sintoma.

Hoje em dia, quem mais exige ser chamado de excelência é quem mais entrega excrescência. Porque a verdadeira excelência nunca precisou de tratamento protocolar para se sentir grande. Ela se mede pelo rastro que deixa, não pelo ruído que faz.

E no rastro do que estamos vendo, o que sobra não é obra. É escombro.

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