MARCELO NEVES
Independiente Del Valle, um exemplo a ser seguido
MARCELO NEVES
O pequeno Independiente Del Valle do Equador conquistou o seu segundo título da Copa Sul-Americana contra o tri campeão mundial São Paulo. A partida realizada em Córdoba na Argentina, confirma o belíssimo trabalho desenvolvido pelos negriazules que hoje tem forte influência até mesmo na seleção equatoriana.
O IDV foi fundado em 1958 e nunca teve grandes destaques no futebol do país, tanto que sempre figurou nas divisões mais baixas do país. Porém o clube foi se profissionalizando neste século e investindo principalmente na estrutura e nas categorias de base.
Os frutos começam a ser colhidos com os títulos da terceira divisão em 2007 e logo depois o da segunda divisão em 2009. Daí para frente o clube jamais deixou de figurar na primeira divisão, mas o título nacional só veio em 2021. A partir de 2013 o clube começa a figurar nas competições continentais. A Sul-Americana foi a primeira em que o IDV participou, já no ano seguinte o clube começa a frequentar a Libertadores e em 2016 chegou à final eliminando clubes como River Plate e Boca Juniors, porém perdeu o título para o Nacional de Medelín.
Após essa campanha os negriazules ganharam o apelido de Mata Gigantes, e o apelido se fez valer novamente na campanha do título da Sul-Americana de 2019 onde eliminou o Independiente da Argentina e o Corinthians, sendo campeão contra o Cólon da Argentina.
Mas tudo isso começou quando o treinador Pablo Repetto chegou ao Del Valle, o uruguaio ficou entre 2012 e 2016 e implantou o modelo de jogo que é utilizado até hoje e principalmente a implantação do modelo em todas as categorias de base, desde a prospecção de jogadores até mesmo à todo o staff do clube. Após sua saída, muitos treinadores iam passando pelo clube, muitos da base que subiam e continuavam a filosofia de jogo, até a chegada do espanhol Ismael Rescalvo, que junto dele traria o jovem Miguel Angel Ramirez para trabalhar nas categorias de base.
Quando Rescalvo deixou o clube Ramirez assumiu o comando e o Del Valle conquistou seu primeiro título da Sul-Americana. Mas o que chamava a atenção mesmo eram os jogadores que eram revelados e principalmente a conquista na base. O clube já esteve em 4 finais de Libertadores Sub-20 conquistando uma em 2020.
Hoje, boa parte da seleção equatoriana tem jogadores com passagens pelo clube. Moisés Caicedo, Hincapié e Anthony Valencia, hoje estão na Europa, o goleiro Moisés Ramírez, o lateral Jhoanner Chávez e o promissor Marco Angulo também figuram na seleção.
É um trabalho, que hoje tem no comando o técnico Martín Anselmi ainda revelando e cada vez mais ganhando força dentro do continente. Se o Equador figura como quarta, ou até mesmo terceira força na América do Sul, muito se passa pelo excelente trabalho feito pelo Independiente Del Valle, que poderia facilmente servir de exemplo também para os clubes brasileiros.
O título conquistado contra o São Paulo no último sábado, coroa o bom trabalho do pequeno, mas com trabalho gigante, clube de Sangolquí.
MARCELO NEVES
Uma Copa do Mundo de contradições
A Copa do Mundo de Clubes entra na última rodada da fase de grupos, e assim como na Copa do Mundo de seleções, surpresas e favoritos mostram sua cara em vários jogos, assim como algumas zebras. E isso tem sido evidente até aqui. Exemplos como empate de um Al-Hilal contra o Real Madrid, vitória do Inter Miami diante do Porto e atuações de equipes periféricas que chamam a atenção.
Com as vitórias de Botafogo diante do PSG, a vitória do Flamengo diante do Chelsea e os empates de Fluminense e Palmeiras frente à Borussia Dortmund e Porto respectivamente, aqueles vira-latas da imprensa brasileira sempre puxam as famosas cartas do “europeu joga sem interesse”, “eles não ligam para o torneio”, “é uma pré-temporada de luxo”, e coisas assim.
Agora esse mesmo vira-latismo (termo muito utilizado por Nélson Rodrigues) começou a usar a desculpa do cansaço e do calor enfrentado pelos times europeus. Mas será mesmo que esses aspectos afetam apenas os times europeus? Em um balanço feito pelo site Sofascore em partidas realizadas nos últimos 12 meses, nenhum time europeu jogou mais de 60 jogos no período, vejam na imagem abaixo:

Ou seja, antes da Copa do Mundo iniciar, o Flamengo foi quem mais atuou no período com 77 jogos disputados, enquanto o time europeu com mais jogos disputados foi o Real Madrid com 62 jogos. Mas aí você pode dizer que os times brasileiros tiveram férias no período enquanto os europeus continuaram atuando.
Então vamos fazer um balanço de fevereiro até o início da Copa do Mundo (entre 1º/02 até 31/05), lembrando que em janeiro as equipes brasileiras já estavam jogando os estaduais em pleno verão. Neste período entre fevereiro e maio quem mais jogou foram Fluminense e Palmeiras, 30 jogos cada um. A equipe europeia que mais atuou no período foi o PSG com 28 jogos.
Ainda em comparação, o Flamengo também fez 28 jogos enquanto o Chelsea entrou em campo 23 vezes. O Botafogo entrou em campo 26 vezes, o Real Madrid jogou 27 jogos, assim como a Inter de Milão. Já o Bayern entrou em campo 21 vezes e o Porto apenas 17 jogos.
É óbvio que são momentos distintos, enquanto as partidas dos europeus é na fase final da temporada, os times brasileiros estão na fase inicial. E ainda assim, o número de lesões musculares nos times brasileiros foi superior ao dos times europeus no mesmo período.
Quando a disputa é do Mundial de Clubes, realizado em dezembro, os europeus estão no meio da temporada, enquanto os brasileiros estão realizando mais de 70 partidas, e não vemos as desculpas de cansaço por aqui. O Botafogo no ano passado, venceu a Libertadores, três dias depois entrava em campo contra o Palmeiras pelo título brasileiro e no dia seguinte viajou para encarar o Pachuca do México dois dias depois e foi derrotado. Mas a nossa imprensa vira-lata preferiu diminuir o futebol brasileiro o relegando como uma força periférica e enfraquecida diante de continentes como asiático, africano e da América do Norte.
Mas diante dos desempenhos das equipes europeias na Copa do Mundo de Clubes, onde os brasileiros estão fazendo frente e colocando dificuldades nos times de lá, os especialistas brasileiros preferem alegar cansaço, forte calor e desinteresse por parte dos jogadores europeus.
Vamos lembrar que a Copa do Mundo de seleções no ano que vem será disputada no mesmo período de agora e no mesmo país, ou seja, forte calor e final de temporada europeia, será que em caso de fracasso europeu, nossos vira-latas irão alegar as mesmas desculpas atuais?
A verdade é que o futebol brasileiro, especificamente de clubes, tem evoluído muito dentro de campo. Temos visto variações táticas, intensidade alta, aplicação tática dos jogadores, e em várias partidas do campeonato brasileiro o que se vê quando elogiam as partidas é: “parece um jogo da Premier League”.
Vejo nessa Copa do Mundo alguns times da elite mundial, e sim, eles são europeus. Bayer, Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e Inter continuam sendo favoritos ao título, mas não irei me surpreender caso um time brasileiro vença a competição. A distância não é tão grande assim como querem fazer você pensar.
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