MARCELO NEVES
A “espanholização” do futebol brasileiro
MARCELO NEVES
No dia 18 de novembro de 2012, Flamengo e Palmeiras entravam em campo pelo Campeonato Brasileiro de 2012 no estádio Raulino de Oliveira em Volta Redonda. A partida que terminou empatada em 1×1, decretava o rebaixamento do Palmeiras para a Série B de 2013.
Apesar de não ter sido rebaixado, o Flamengo também enfrentava enormes dificuldades financeiras e terminava, naquele ano, a gestão da presidente Patrícia Amorim e o ano de 2013 seria o início da gestão Bandeira de Mello. Pelo lado Palestrino, Paulo Nobre também tomaria posse em janeiro do mesmo ano.
Cada um, à sua maneira, iniciava um processo de reconstrução. Paulo Nobre injetando muito dinheiro no clube, contratações numerosas e a construção de um novo estádio, davam um novo norte ao clube paulista. Pelo lado carioca, auditorias, cortes de despesa, devolução de Vagner Love ao CSKA de Moscou por não poder cumprir com o pagamento e um orçamento digno de um time que estava na segunda divisão.
O Palmeiras buscando a redenção de voltar à elite do futebol brasileiro, o Flamengo flertando com rebaixamento e ainda assim, conquistou de forma inesperada a Copa do Brasil daquele ano, e mesmo com o título, nada de altos investimentos, sempre com time modesto e com forte controle nas despesas.
Os dois clubes passaram por um processo que muitos clubes hoje não querem passar e acham que virando uma SAF poderão “cortar caminho” e entrarem no mesmo patamar de Flamengo e Palmeiras. A consolidação destes dois clubes e a hegemonia que estão atingindo, é fruto do trabalho que cada clube se propôs a fazer. Ambos com grande estrutura, fortes categorias de base, grandes revelações e sólidos financeiramente.
Nestes 10 anos, a dupla coleciona cinco Brasileiros, quatro Copas do Brasil, quatro Libertadores, duas Recopas Sudamericanas e duas Supercopas do Brasil; e se formos levar em consideração os últimos quatro anos, o domínio é ainda maior, e sempre com a dupla no pódio do Campeonato Brasileiro, ou da Copa do Brasil e também da Libertadores. Na competição continental, de 2019 para cá, apenas Flamengo e Palmeiras levantaram o troféu mais cobiçado do continente.
E isso é fruto de trabalho, organização, austeridade e responsabilidade. Se o medo era uma “espanholização” no Brasil entre Flamengo e Corinthians, ela está se consolidando, mas com o Palmeiras no lugar do Corinthians. E para não ficar apenas no exemplo das duas equipes, o Athletico-PR merece também elogios, pois, apesar da diferença para a dupla, o Furacão consegue acumular títulos importantes neste mesmo período, e a decisão da Libertadores diante do Flamengo, mostra a consolidação do clube paranaense.
A única certeza no futebol brasileiro atualmente, é que Flamengo e Palmeiras entrarão em 2023 como favoritos e brigando por todos os títulos possíveis, e que os demais corram atrás.
MARCELO NEVES
Uma Copa do Mundo de contradições
A Copa do Mundo de Clubes entra na última rodada da fase de grupos, e assim como na Copa do Mundo de seleções, surpresas e favoritos mostram sua cara em vários jogos, assim como algumas zebras. E isso tem sido evidente até aqui. Exemplos como empate de um Al-Hilal contra o Real Madrid, vitória do Inter Miami diante do Porto e atuações de equipes periféricas que chamam a atenção.
Com as vitórias de Botafogo diante do PSG, a vitória do Flamengo diante do Chelsea e os empates de Fluminense e Palmeiras frente à Borussia Dortmund e Porto respectivamente, aqueles vira-latas da imprensa brasileira sempre puxam as famosas cartas do “europeu joga sem interesse”, “eles não ligam para o torneio”, “é uma pré-temporada de luxo”, e coisas assim.
Agora esse mesmo vira-latismo (termo muito utilizado por Nélson Rodrigues) começou a usar a desculpa do cansaço e do calor enfrentado pelos times europeus. Mas será mesmo que esses aspectos afetam apenas os times europeus? Em um balanço feito pelo site Sofascore em partidas realizadas nos últimos 12 meses, nenhum time europeu jogou mais de 60 jogos no período, vejam na imagem abaixo:

Ou seja, antes da Copa do Mundo iniciar, o Flamengo foi quem mais atuou no período com 77 jogos disputados, enquanto o time europeu com mais jogos disputados foi o Real Madrid com 62 jogos. Mas aí você pode dizer que os times brasileiros tiveram férias no período enquanto os europeus continuaram atuando.
Então vamos fazer um balanço de fevereiro até o início da Copa do Mundo (entre 1º/02 até 31/05), lembrando que em janeiro as equipes brasileiras já estavam jogando os estaduais em pleno verão. Neste período entre fevereiro e maio quem mais jogou foram Fluminense e Palmeiras, 30 jogos cada um. A equipe europeia que mais atuou no período foi o PSG com 28 jogos.
Ainda em comparação, o Flamengo também fez 28 jogos enquanto o Chelsea entrou em campo 23 vezes. O Botafogo entrou em campo 26 vezes, o Real Madrid jogou 27 jogos, assim como a Inter de Milão. Já o Bayern entrou em campo 21 vezes e o Porto apenas 17 jogos.
É óbvio que são momentos distintos, enquanto as partidas dos europeus é na fase final da temporada, os times brasileiros estão na fase inicial. E ainda assim, o número de lesões musculares nos times brasileiros foi superior ao dos times europeus no mesmo período.
Quando a disputa é do Mundial de Clubes, realizado em dezembro, os europeus estão no meio da temporada, enquanto os brasileiros estão realizando mais de 70 partidas, e não vemos as desculpas de cansaço por aqui. O Botafogo no ano passado, venceu a Libertadores, três dias depois entrava em campo contra o Palmeiras pelo título brasileiro e no dia seguinte viajou para encarar o Pachuca do México dois dias depois e foi derrotado. Mas a nossa imprensa vira-lata preferiu diminuir o futebol brasileiro o relegando como uma força periférica e enfraquecida diante de continentes como asiático, africano e da América do Norte.
Mas diante dos desempenhos das equipes europeias na Copa do Mundo de Clubes, onde os brasileiros estão fazendo frente e colocando dificuldades nos times de lá, os especialistas brasileiros preferem alegar cansaço, forte calor e desinteresse por parte dos jogadores europeus.
Vamos lembrar que a Copa do Mundo de seleções no ano que vem será disputada no mesmo período de agora e no mesmo país, ou seja, forte calor e final de temporada europeia, será que em caso de fracasso europeu, nossos vira-latas irão alegar as mesmas desculpas atuais?
A verdade é que o futebol brasileiro, especificamente de clubes, tem evoluído muito dentro de campo. Temos visto variações táticas, intensidade alta, aplicação tática dos jogadores, e em várias partidas do campeonato brasileiro o que se vê quando elogiam as partidas é: “parece um jogo da Premier League”.
Vejo nessa Copa do Mundo alguns times da elite mundial, e sim, eles são europeus. Bayer, Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e Inter continuam sendo favoritos ao título, mas não irei me surpreender caso um time brasileiro vença a competição. A distância não é tão grande assim como querem fazer você pensar.
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