VIVALDO LOPES
Temperanças Econômicas
VIVALDO LOPES
Iniciamos 2023 sob o signo de nova liderança política nacional e elevadas expectativas por parte da população. No campo político, os grandes desafios são promover a unidade nacional, reduzir a pobreza e dar início a um ciclo de crescimento sustentado da economia. Para obter sucesso nesses desafios, o presidente Lula precisará de todo o capital político obtido nas urnas, exercitar todo o seu talento político para o diálogo e utilizar intensamente a ampla coalização política que construiu na vitoriosa campanha presidencial para garantir a governabilidade e promover os avanços sociais e econômicos tão esperados por todos os brasileiros.
O espectro fiscal não é dos mais animadores. O próximo governo recebe as contas públicas nacionais em situação similar à de terra arrasada. O superávit primário previsto para 2022 (receitas federais menos as despesas, antes do pagamento dos juros da dívida), foi obtido de forma forçada, com calote no pagamento dos precatórios (dívidas líquidas e certas, por decisão judicial de última instância), redução drásticas dos investimentos públicos, nenhum reajuste para os servidores públicos federais em quatro anos, adiamento de gastos em áreas essenciais, como saúde, educação, habitação e nenhum aumento real do salário mínimo e benefícios da previdência. Além disso tudo, por razões eleitoreiras, a equipe econômica promoveu desonerações tributárias que beiram aos 2% do PIB. Todas com término previsto para 31 de dezembro de 2022. Menos a redução das alíquotas do ICMS dos estados que é permanente. À guisa de exemplo, cito a desoneração de PIS/PASEP, Cofins e Cide dos combustíveis. A isenção desses tributos, que totalizaram 52 bilhões de reais, vale somente até o final de dezembro, retornando todos em janeiro próximo. Mesmo assim, na lei orçamentária anual de 2023, elaborada pelo atual ministro da Economia, Paulo Guedes, e aprovada pelo congresso nacional, está previsto um déficit primário de 220 bilhões de reais.
No cenário macroeconômico, as estimativas são de crescimento baixo do PIB, próximo a 1%, inflação persistente, na casa de 5%, taxa de desemprego de 8% e juros básicos de 13,75% que deve perdurar ao longo do ano. O ambiente da economia global continuará retraído em razão das medidas contracionistas tomadas pelos bancos centrais dos países europeus, asiáticos e Estados Unidos para combater as elevadas taxas de inflação que atormentam os três continentes. A invasão da Rússia sobre a Ucrânia contribuiu para o aumento de custos industriais e agropecuários, tracionando ainda mais os já elevados índices inflacionários, E a China vê sua atividade econômica desacelerar porque trava uma tsunâmica batalha contra o avanço dos casos de covid-19 em seu território.
O enfrentamento dos desafios nacionais exigirá muita temperança econômica para integrar boa governança pública, políticas econômicas acertadas para colocar o país na rota do crescimento, contemplando avanços sociais, equilíbrio fiscal e saudável governabilidade política, sem a qual as demais medidas ficam inviabilizadas.
Grande parte dos economistas, analistas financeiros e grandes “players” do mercado de capitais mostra ceticismo com a equipe econômica, liderada por Fernando Haddad. O time fazendário é visto como expansionista de gastos, “estatizante” e muito paulistano. Fatos que, na percepção desses agentes, poderão resultar em medidas retardadoras da reaceleração da atividade econômica. E, por consequência, deteriorar ainda mais o ambiente de negócios. A resposta do “Time Haddad” precisa vir rápida e precisa, sob a forma de medidas que possam ser apresentadas, aprovadas pelo parlamento e implementadas ainda no primeiro semestre. As temperanças econômicas da jovem equipe econômica e a sabedoria política do presidente Lula, acostumado a liderar em ambiente hostil, são os principais fatores críticos de sucesso do governo que inicia pressionado pela esperança e altas expectativas dos cidadãos-contribuintes. A conferir.
VIVALDO LOPES
REFORMA TRIBUTÁRIA, DESAFIOS E OPORTUNIDADES
REFORMA TRIBUTÁRIA, DESAFIOS E OPORTUNIDADES
Vivaldo Lopes
A reforma tributária é a mais importante transformação no sistema tributário do Brasil desde 1966 quando foi criado o Código Tributário Nacional, cuja implantação se inicia em 2027 e será concluída em 2033.
O novo sistema de tributação terá alto impacto para estados e municípios.
A principal alteração instituída pela Emenda Constitucional n.132 (2023) e Lei complementar n. 214 (2025) foi a definição de que a tributação do consumo de bens e serviços se dará no local onde são consumidos e não onde são produzidos.
A alteração constitucional optou pelo IVA (imposto sobre valor adicionado) dual, criando a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que substituirá os tributos federais PIS, Cofins e IPI e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) que substituirá o ICMS (estadual) e ISS (municipal). O IBS gerará receitas para estados e municípios e os recursos da CBS irão para o governo federal. A emenda constitucional estabelece ainda que a alíquota máxima somada dos dois novos tributos não pode ser superior a 26,5%.
A reforma tributária elimina a guerra fiscal entre os estados ao acabar com os incentivos fiscais. Estados ficam impossibilitados de conceder benefícios fiscais para atrair empresas aos seus territórios.
Para compensar possíveis perdas com a retirada dos incentivos fiscais, que pode levar empresas a alterar a localização de suas plantas, foi criado o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) com o objetivo de transferir recursos da União a estados para financiar políticas de desenvolvimento regional. O FNDR ajuda a mitigar os efeitos da proibição de concessão de benefícios fiscais, mas a política de atração de negócios por meio de concessões tributárias deixa de ser um instrumento de estímulo ao desenvolvimento regional.
A reforma tributária representa para Mato Grosso desafios e oportunidades, por ter uma economia com características de alta sensibilidade à implantação do novo sistema de cobrança tributária.
Os maiores desafios são como manter ou aumentar a receita fiscal dos principais tributos estaduais (ICMS e ISS) contando com um mercado consumidor de apenas quatro milhões de habitantes e como atrair novos negócios sem oferecer incentivos fiscais.
É muito difícil responder este questionamento antecipadamente, antes da efetiva operacionalização do novo sistema tributário do consumo.
Mas é possível apontar algumas evidências, já constatadas em vários estudos e ensaios sobre a reforma tributária.
A despeito do pequeno mercado consumidor, Mato Grosso é a economia que mais cresceu nos últimos trinta anos entre os estados brasileiros. Tem uma das maiores rendas per capita do país e é consumidor líquido de bens e serviços. Isto é, importamos mais serviços e produtos industriais complexos do que exportamos. A maior parte da nossa produção é de bens agropecuários primários que são isentos de tributos ao serem exportados para outros países.
De outro lado, o estado é grande consumidor de bens e serviços tecnológicos e industriais sofisticados, com alto valor agregado. À guisa de exemplo, Mato Grosso é campeão nacional em aquisição de caminhões, tratores, colheitadeiras, implementos agrícolas, jatos executivos e software de gestão. Os tributos cobrados sobre esses bens são pagos nos estados onde estão suas respectivas fábricas. Com a reforma tributária passarão a recolher o IBS e CBS em Mato Grosso onde se dá o consumo.
A janela de oportunidades surge com a possibilidade de aumentar a arrecadação do estado com a simplificação e redução de custos das empresas com apuração, gestão e recolhimento dos novos tributos.
O ICMS é o tributo de maior complexidade do sistema tributário brasileiro. Cada estado tem legislação complexa e específica do ICMS. A reforma tributária vai padronizar a legislação nacionalmente e a arrecadação será efetuada diariamente pela ferramenta tecnológica chamada “split payment”, por meio da rede bancária nacional.
Segundo estudo e metodologia de Gobetti e Monteiro (GOBETTI, Wulff Sérgio) e (MONTEIRO, Priscila Kaiser), Impactos
Redistributivos da Reforma Tributária: Estimativas Atualizadas (IPEA, 2023),os municípios com menores níveis de desenvolvimento econômico e social serão mais beneficiados com a vigência do IBS. Segundo Gobetti e Monteiro, 78% dos municípios brasileiros de pequeno porte e com baixo desenvolvimento terão aumento de receitas com a implantação da reforma tributária.
As pequenas cidades praticamente não arrecadam ISS e possuem pequena participação na parte do ICMS que cabe aos municípios (25% da arrecadação). Passarão a contar com volume maior de recursos compartilhados (equivalentes à soma dos atuais ICMS e ISS) e contarão com uma parte fixa do IBS (5%) que será distribuída igualitariamente aos 142 municípios de Mato Grosso. Além de outros critérios como população, melhorias na aprendizagem e preservação ambiental.
Os gastos tributários de Mato Grosso em 2025, somente com ICMS, foram de R$ 12 bilhões. Com a extinção dos benefícios fiscais, esses recursos comporão a receita do IBS a partir de 2033, aumentando expressivamente o montante a ser repartido entre o tesouro estadual e municípios.
O bom ambiente de negócios e o acelerado crescimento da atividade econômica também atuarão como fatores positivos para ampliar a arrecadação do IBS em Mato Grosso.
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