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Marcelo Porto Carrero

Meu pirão primeiro

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Marcelo Porto Carrero

A frase, tida como capitalista, é a que melhor expressa a antiga prática dos oportunistas de ocasião. Hábito esse, que voltou a estar em pleno vigor desde o dia 01/01/2023. Talvez até antes disso, a considerar o que acontece descaradamente nas altas cúpulas dos três poderes da República.

Só não vê quem tapa os olhos com uma viseira relacionada a outro dito, qual seja, “o que é que eu vou ganhar com isso”, muito popular nos três níveis de governança e nas empresas de comunicação onde até a notícia é paga. Para quem não entendeu a questão da governança, trata-se da maneira de gerir instituições, nesse caso as públicas e de economia mista.

Pirão, no jargão político, é o que se ganha na arte de negociar o que não é seu, o que para muitos também é entendido como a astúcia de tirar proveito da coisa alheia, principalmente em se tratando do erário público. Já em relação à culinária, pirão é o resultado da inserção de farinha para engrossar um caldo. Creio que essa singela explicação basta para fazer entender a analogia com o que está acima colocado.

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Então, a abstinência dessa apreciada iguaria política deixou muita gente desesperada a ponto de o desconforto cegá-las quanto às consequências de seus atos. Adicionando essa somatização aos costumes da gastança desenfreada, das alianças inconsequentes e dos compromissos impagáveis teremos como resultado a negociação da dignidade, se é que um dia ela existiu em quem só se satisfaz se tiver desse pirão no seu cardápio.

A muito custo essa costumeira prática na arte de fazer política chegou a ser reduzida no passado recente na vã tentativa de moralizar a escrachada, ridicularizada, desacreditada, depreciada, desconceituada e desabonada leva de parlamentares que, eleição após eleição, vem sendo conduzida às duas Casas do Congresso Nacional, em grande parte graças aos votos de legenda e procedimentos nada republicanos de compra de votos.

Seria o caso de dizer inacreditavelmente, mas não dá porque efetivamente a maioria dos processos de cassação (quando existem) de candidatos desonestos não termina, melhor dizendo, termina em nada. A justiça, seja ela comutativa, geral ou legal e distributiva, cuja simbólica estátua a apresenta como impossibilitada de ver, portanto, de ser manipulada pelos pesos colocados em sua balança, mostra não ser ela totalmente cega quando se deixa levar por subterfúgios habilmente plantados nas entrelinhas do livro das leis, seu Vade Mecum, para ser burlada em sua essência.

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De acordo com o site etmologia.com.br, a ideia de justiça tem uma abordagem dupla, pois de um lado expressa a qualidade de ser justa e equilibrada na tomada de decisões e, paralelamente, faz referência a um sistema legal. Então, é nesse paralelismo com “O SISTEMA” que tudo pode acontecer como de fato acontece, infelizmente.

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Marcelo Porto Carrero

Mensagem aos jovens incrédulos

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Mensagem aos jovens incrédulos

Estou envelhecendo. Por isso posso dizer com tranquilidade: ah, os jovens, são quase todos incrédulos. Sei disso porque estive lá, exatamente onde eles agora estão.

Aos vinte, eu não duvidava que a velhice existisse. Ela existia na minha frente, na minha casa. Meus avós estavam lá. Viviam e representavam muito para mim. Eu os amava, os respeitava. O que, no fundo, não acreditava era que um dia eu seria o velho. Que um dia seria aquele a ter que enfrentar, sozinho, a diferença entre viver e significar.

Quando se é jovem, viver basta. O significado vem de brinde. A gente mal acorda e já significa para alguém, para os pais, para os amigos, para a cidade. Na velhice, a conta se inverte. Continuamos vivendo, com saúde, com lucidez, mas a pergunta diária já não é o que vou viver hoje, e sim o que do que vivi continua significando. E para quem.

É nessa inversão que o jovem não crê. E não o culpo. Nossa cultura inteira o ensina a não crer.

Vivemos num país que esconde seus velhos. Transformamos a juventude em mercadoria e a velhice em bastidor. O velho não aparece no anúncio, não aparece no feed, a não ser como piada ou como peso. Empurramos nossos velhos para casas separadas, para assuntos separados, para horários separados. E depois nos surpreendemos quando um jovem não consegue conversar com um idoso.

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Eu faço parte de uma multidão que o Brasil ainda finge não ver. A população idosa de 60 anos ou mais cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024. Hoje, já somos 16% da população. E as projeções do IBGE indicam que em 2070 seremos quase 40%, ou seja, um em cada três brasileiros. Não somos mais uma minoria que precisa de cuidado, somos o futuro demográfico do país.

No entanto, continuamos sendo tratados como se fôssemos uma outra espécie, como alguém já escreveu. O mercado nos chama de inativos, mesmo quando um em cada quatro de nós ainda trabalha. A tecnologia nos chama de analfabetos digitais, mesmo quando somos nós que mantemos tantas famílias e tantas cidades do interior do país de pé.

O que meus avós me ensinaram, sem nunca dizerem com essas palavras, é que envelhecer não é parar de viver, é mudar a forma de significar. Eles não significavam porque eram produtivos, significavam porque eram referência. Eram o lugar onde a história da família pousava. Hoje, sou eu que tento ser esse lugar para meus netos. Não tento competir com o jovem em velocidade, tento oferecer a ele o que a velocidade não dá: consciência e continuidade.

E é por isso que a incredulidade dos jovens me preocupa. Não por vaidade. Quando um jovem não consegue se imaginar velho, ele tem dificuldade de fazer projetos longos. Para que poupar, para que cuidar da saúde, para que preservar um rio, uma rua, uma amizade de cinquenta anos, se o seu eu aos setenta anos lhe parece um estranho? O etarismo que hoje me exclui de certas conversas começou muito antes, na incredulidade daquele jovem de 20 anos que eu mesmo fui.

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Poucos se dão conta disso a ponto de aceitar. A maioria não entende o que o passar do tempo realmente faz e, por isso, não se vê lá com a clareza necessária.

Aos 72 anos, eu entendo o que ele, o tempo, faz. Ele não leva tudo embora, como os jovens temem. Ele leva o ruído e deixa o essencial. Ele me tirou a pressa de viver e me deixou a urgência de significar.

Se me permitem um conselho — os velhos servem para isso —, eu diria aos jovens: não acreditem em nós quando dizemos que envelhecer é ruim. E não acreditem no espelho que diz que vocês serão jovens para sempre. Perguntem aos seus velhos não só como eles viveram, mas o que ainda os faz querer significar hoje. Vocês vão se surpreender ao descobrir que o velho que vocês serão um dia já está esperando por vocês, com a mesma incredulidade e com a mesma esperança.

Eu estive lá. Vocês ainda chegarão aqui. Façam da vida um bom caminho!

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