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Marcelo Porto Carrero

Duas perguntas

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Marcelo Porto Carrero

O que ganhamos até aqui?

O que poderemos perder daqui para a frente?

Já vi alegarem que o amor venceu o ódio nessas eleições. Sendo assim, vamos buscar no dicionário, o pai dos burros, seus significados.

Amor – forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais.

Ódio – aversão intensa geralmente motivada por medo, raiva ou injúria sofrida; odiosidade.

Daí, a tentadora oportunidade para apresentar as duas perguntas acima elencadas.

Ora, se esse amor existe nos projetos dos que aparentemente venceram as eleições em que parte de seu, até agora, desconhecido plano de governo está esse sentimento? Em suas ações depredadoras dos bons costumes e modos; nas declaradas aversões ao direito de ir, vir, se expressar e crer; na inexistência da propriedade privada; na insinuação de que o patriotismo é um ultrapassado sentimento de autodeterminação; na proposta de internacionalização da Amazônia Brasileira; no apoio recebido do crime organizado; na descriminalização do uso de drogas até agora ilícitas; na liberação do aborto; na exacerbação das diferenças e outras considerações tidas como ilícitas, mas que a qualquer momento os supremos senhores das leis podem interpretar de forma diferente ou na certeza da impunidade para com seus atos?

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Bem, devido ao excessivo número de indagações que o amor, sob o ponto de vista ideológico enseja, acho prudente parar por aqui.

E quanto ao ódio? Se o ódio é próprio do governo atual como devemos considerar os esforços despendidos nas soluções adotadas para saciar a sede na região nordeste do país; como explicar os recursos destinados a socorrer estados e municípios durante a pandemia; como entender o programa de auxílio às empresas para que não demitissem seus funcionários; como não perceber o sucesso na destinação de recursos extraordinários às famílias carentes em momento tão singularmente negativo de nossa economia; como não enxergar os investimentos nas abandonadas infraestruturas rodoviária, ferroviária, aquaviária e aeroviária superando todas as expectativas desses setores, inclusive com o termino de obras nunca concluídas mesmo em momentos em que não havia os atrapalhos à saúde econômica no país e no mundo por causa da virose e da guerra em andamento; como acusá-lo de causar desemprego quando alcança índices irrefutáveis de melhoria nos números de recuperação de carteiras assinadas que remetem a situações anteriores a 2015; como não considerar a vigorosa retomada da atividade econômica e do PIP que nos fazem estar em melhor situação que muitos países desenvolvidos; como acusa-lo de não ter tomado as providencias cabíveis contra a covid-19 quando ainda em 03 de fevereiro de 2020 declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, momento em que estados e municípios agraciados pelo autonomia decretada pelo STF não atenderam àquele chamamento ao bom senso e, finalmente, como acusá-lo de não ter adquirido as vacinas necessárias quando nem mesmo os países produtores as disponibilizava para fora de suas fronteiras e o arcabouço legal nacional sobre o assunto o impedia?

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Como a nação brasileira aparenta estar em um processo de autocomiseração podemos considerar amor como sentimento do ganhador e ódio como sendo o do perdedor?

São estas as condicionantes às respostas sobre o que ganhamos nesses últimos quatro anos do governo que se encerrará no dia 31 de dezembro de 2022 e o que poderemos perder de lá em diante.

Pois é, minhas dúvidas em relação àquelas duas perguntas iniciais acabaram por aumentar ainda mais. As tuas não?

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Marcelo Porto Carrero

Mensagem aos jovens incrédulos

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Mensagem aos jovens incrédulos

Estou envelhecendo. Por isso posso dizer com tranquilidade: ah, os jovens, são quase todos incrédulos. Sei disso porque estive lá, exatamente onde eles agora estão.

Aos vinte, eu não duvidava que a velhice existisse. Ela existia na minha frente, na minha casa. Meus avós estavam lá. Viviam e representavam muito para mim. Eu os amava, os respeitava. O que, no fundo, não acreditava era que um dia eu seria o velho. Que um dia seria aquele a ter que enfrentar, sozinho, a diferença entre viver e significar.

Quando se é jovem, viver basta. O significado vem de brinde. A gente mal acorda e já significa para alguém, para os pais, para os amigos, para a cidade. Na velhice, a conta se inverte. Continuamos vivendo, com saúde, com lucidez, mas a pergunta diária já não é o que vou viver hoje, e sim o que do que vivi continua significando. E para quem.

É nessa inversão que o jovem não crê. E não o culpo. Nossa cultura inteira o ensina a não crer.

Vivemos num país que esconde seus velhos. Transformamos a juventude em mercadoria e a velhice em bastidor. O velho não aparece no anúncio, não aparece no feed, a não ser como piada ou como peso. Empurramos nossos velhos para casas separadas, para assuntos separados, para horários separados. E depois nos surpreendemos quando um jovem não consegue conversar com um idoso.

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Eu faço parte de uma multidão que o Brasil ainda finge não ver. A população idosa de 60 anos ou mais cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024. Hoje, já somos 16% da população. E as projeções do IBGE indicam que em 2070 seremos quase 40%, ou seja, um em cada três brasileiros. Não somos mais uma minoria que precisa de cuidado, somos o futuro demográfico do país.

No entanto, continuamos sendo tratados como se fôssemos uma outra espécie, como alguém já escreveu. O mercado nos chama de inativos, mesmo quando um em cada quatro de nós ainda trabalha. A tecnologia nos chama de analfabetos digitais, mesmo quando somos nós que mantemos tantas famílias e tantas cidades do interior do país de pé.

O que meus avós me ensinaram, sem nunca dizerem com essas palavras, é que envelhecer não é parar de viver, é mudar a forma de significar. Eles não significavam porque eram produtivos, significavam porque eram referência. Eram o lugar onde a história da família pousava. Hoje, sou eu que tento ser esse lugar para meus netos. Não tento competir com o jovem em velocidade, tento oferecer a ele o que a velocidade não dá: consciência e continuidade.

E é por isso que a incredulidade dos jovens me preocupa. Não por vaidade. Quando um jovem não consegue se imaginar velho, ele tem dificuldade de fazer projetos longos. Para que poupar, para que cuidar da saúde, para que preservar um rio, uma rua, uma amizade de cinquenta anos, se o seu eu aos setenta anos lhe parece um estranho? O etarismo que hoje me exclui de certas conversas começou muito antes, na incredulidade daquele jovem de 20 anos que eu mesmo fui.

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Poucos se dão conta disso a ponto de aceitar. A maioria não entende o que o passar do tempo realmente faz e, por isso, não se vê lá com a clareza necessária.

Aos 72 anos, eu entendo o que ele, o tempo, faz. Ele não leva tudo embora, como os jovens temem. Ele leva o ruído e deixa o essencial. Ele me tirou a pressa de viver e me deixou a urgência de significar.

Se me permitem um conselho — os velhos servem para isso —, eu diria aos jovens: não acreditem em nós quando dizemos que envelhecer é ruim. E não acreditem no espelho que diz que vocês serão jovens para sempre. Perguntem aos seus velhos não só como eles viveram, mas o que ainda os faz querer significar hoje. Vocês vão se surpreender ao descobrir que o velho que vocês serão um dia já está esperando por vocês, com a mesma incredulidade e com a mesma esperança.

Eu estive lá. Vocês ainda chegarão aqui. Façam da vida um bom caminho!

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