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Marcelo Porto Carrero

De Pau Rodado a Pau Fincado

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Marcelo Porto Carrero

De Pau Rodado a Pau Fincado

Cuiabá sempre foi porto de chegada. Durante décadas, o rio trazia o sustento, levava a produção e com isso, os ‘paus rodados’ — gente que vinha de longe, flutuando nas incertezas da sorte. Eu fui um deles, desembarquei aqui ainda menino, com os olhos cheios de espanto diante do calor e da luz desta terra.

Eram outros tempos. A estrada, ainda que precária —uma mistura de terra, cascalho, piçarra e pó —, era longa, uma distância a percorrer para chegar aos centros mais desenvolvidos do país. Entretanto, ela se tornou o melhor caminho para os que para cá se destinavam; sendo acesso garantido a maior parte do tempo e substituiu, com o passar desse tempo, a via fluvial. Foi só a partir da metade dos anos 70 do século passado que o asfalto chegou, trazendo a bem-aventurança e a velocidade ao desenvolvimento da cidade e do Mato Grosso remanescente.

Mas a família, ou melhor, o sobrenome, já rondava estas paragens desde o século anterior. Remonta à Guerra do Paraguai, quando um de nossos antepassados comandou a defesa do Brasil no primeiro ataque ao país, naquela escaramuça que perdurou por quatro longos anos, de 1866 a 1870.

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Tudo começou com uma surpresa durante uma visita de rotina do então Coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero ao Forte de Coimbra. Subitamente, aquela longínqua fortificação, a mais próxima do Paraguai e alheia ao início do conflito, viu surgir uma flotilha de navios de guerra e mais de três mil soldados inimigos. O comando paraguaio exigiu a capitulação imediata; a única forma, diziam, de preservar a vida de todos.

Mesmo com pouco mais de uma centena de almas, suas famílias e munição de rotina, a resposta dos defensores foi um sonoro “não”. A coragem e a determinação no Forte de Coimbra seguraram o ímpeto da invasão por dias cruciais — tempo suficiente para que os moradores da fortificação e de Corumbá escapassem do massacre iminente.

Voltando ao presente, o tempo — esse mestre das fundações —tratou de transformar o movimento das águas do Rio Cuiabá em margem, em barranco sólido para a atracação das pessoas que, como meus pais, vieram para cá, se encantaram com a cidade, sua gente, e foram bem acolhidos. Por isso fincamos raízes. Foi assim que cheguei.

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Desde então, um janeiro de 1962, vivo entre o Porto e a Chapada, entre os livros e os canteiros de obras, conheci minha alma gêmea e vi meus filhos e netos brotarem “cuiabanos de chapa e cruz”. Hoje, não sou mais o que, em meu imaginário, o rio trouxe; sou o que a terra segurou.

Sou “pau fincado” e enraizado. Sou da terra porque aqui me plantei, fui adubado, amado, cresci, amadureci e deitei os frutos que agora colho. Em Cuiabá, floresci na companhia de amigos que, como todo bom cuiabano, sabem cativar os ‘paus rodados’ abrindo o cerne de sua terra para ajuda-los a se plantar. Fui acolhido com o carinho de um dos locais mais férteis na arte do bem receber.

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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