MARCELO NEVES
O Maior do Século
MARCELO NEVES
No último domingo vimos a maior final de Copa do Mundo que eu já presenciei. Vejo finais de Copa desde 1982 quando a Itália venceu a Alemanha por 3×1. Quatro anos depois no México, Maradona carregou sua seleção nas costas ao vencer a Alemanha por 3×2, após estarem vencendo por 2×0 e ver os alemães Rummenigge e Völler empatar em 2×2 e após jogadaça de El Pibe, Burruchaga faz o terceiro.
Daí para frente tivemos uma decisão por pênaltis em 1994, 2006, prorrogação em 2010 e 2014. Alguns atropelos como a França contra o Brasil em 1998 e a mesma França em 2018 contra a Croácia. Mas o que se viu neste dia 18 de dezembro de 2022 foi algo épico.
O duelo entre dois jogadores de diferentes gerações, um em sua última Copa do Mundo, outro que tentava sua segunda Copa e que, provavelmente, será o grande nome desta geração. Os dois com cinco gols, ambos camisa 10 e querendo fazer história.
Além do título argentino, vimos algumas marcas históricas serem batidas. Mbappé igualou o feito do inglês Geoff Hurst ao fazer três gols em uma final de Copa do Mundo, Hurst havia feito três na final de 1966. Messi passou Pelé na lista de maiores artilheiros da Copa do Mundo, Mbappé empatou com o Rei com 12 gols e pode ultrapassar o maior na lista, o alemão Miroslav Klose que tem 16 gols. Messi também se tornou o jogador a disputar o maior número de partidas em Copas do Mundo com 26 jogos. O técnico Lionel Scaloni se tornou o técnico mais jovem a ganhar a Copa do Mundo desde 1978, seu conterrâneo Luís Cesar Menotti ainda é o mais jovem com 39 anos.
São muitos números que fizeram parte desta final, mas são apenas números. O romantismo, o imprevisível, as atuações, o jogo em si é que fazem desta final a maior de todas. Como um verdadeiro tango, a Argentina passou por sustos nesta edição, começa sendo derrotada pela Arábia Saudita, fica ameaçada de ser eliminada na segunda rodada contra o México. Mas a versão maradoniana de Lionel Messi transformou a sua última participação em algo ainda mais gigante que toda a sua carreira.
Messi fez sua estreia nos profissionais na temporada 2003/2004, são quase 20 anos como profissional. Campeão do Mundo sub-20 em 2005, Medalha de Ouro na Olimpíadas de Pequim em 2008, várias vezes campeão pelo Barcelona, várias vezes eleito o Melhor do Mundo, rivalidade com Cristiano Ronaldo, mas ainda faltava algo: um título com a seleção principal de seu país.
Em quatro Copas do Mundo, Messi viu sua seleção fracassar de várias formas, inclusive perdendo uma final no Maracanã em 2014. Muitos fracassos na Copa América onde ele perdeu pênalti decisivo contra o Chile. Chegou a declarar que não jogaria mais pela seleção argentina. Mas voltou atrás da decisão a pedido de um ex-colega de seleção, Lionel Scaloni que assumiu a seleção logo após a Copa da Rússia.
Messi se tornou algo que muitos esperavam dele, o líder de uma nação. Liderou a jovem e promissora geração que surge na Argentina como De Paul, Mac Allister, Enzo Fernandes, Julian Alvarez e outros que brilharam nesta seleção.
Foi no Maracanã, palco onde foi vice mundial, que Messi passava a se tornar o maior deste século, se já não era antes. A final da Copa América contra o Brasil deu um título para a Argentina depois de 28 anos. Voltou a levantar um troféu na Finalíssima contra a Itália e se credenciou como uma das favoritas na Copa do Mundo.
Messi marcou sete gols e deu outras três assistências, participou de 10 dos 13 gols marcados pela sua seleção. Foi eleito o melhor em campo seis de sete jogos. Venceu o prêmio de melhor jogador da Copa. E tirou a Argentina de uma fila que perdurava desde 1986.
Maradona foi o nome daquela Copa, e do céu viu Messi, em sua melhor versão, levantar a taça. Sua carreira na seleção terminou, ainda o veremos em campo por mais alguns anos, ainda em um nível altíssimo que, não tão cedo vermos alguém alcançar.
Obrigado Deus por me permitir ver a história ser escrita, obrigado Messi por continuar fazendo do futebol a mais pura arte.
MARCELO NEVES
Uma Copa do Mundo de contradições
A Copa do Mundo de Clubes entra na última rodada da fase de grupos, e assim como na Copa do Mundo de seleções, surpresas e favoritos mostram sua cara em vários jogos, assim como algumas zebras. E isso tem sido evidente até aqui. Exemplos como empate de um Al-Hilal contra o Real Madrid, vitória do Inter Miami diante do Porto e atuações de equipes periféricas que chamam a atenção.
Com as vitórias de Botafogo diante do PSG, a vitória do Flamengo diante do Chelsea e os empates de Fluminense e Palmeiras frente à Borussia Dortmund e Porto respectivamente, aqueles vira-latas da imprensa brasileira sempre puxam as famosas cartas do “europeu joga sem interesse”, “eles não ligam para o torneio”, “é uma pré-temporada de luxo”, e coisas assim.
Agora esse mesmo vira-latismo (termo muito utilizado por Nélson Rodrigues) começou a usar a desculpa do cansaço e do calor enfrentado pelos times europeus. Mas será mesmo que esses aspectos afetam apenas os times europeus? Em um balanço feito pelo site Sofascore em partidas realizadas nos últimos 12 meses, nenhum time europeu jogou mais de 60 jogos no período, vejam na imagem abaixo:

Ou seja, antes da Copa do Mundo iniciar, o Flamengo foi quem mais atuou no período com 77 jogos disputados, enquanto o time europeu com mais jogos disputados foi o Real Madrid com 62 jogos. Mas aí você pode dizer que os times brasileiros tiveram férias no período enquanto os europeus continuaram atuando.
Então vamos fazer um balanço de fevereiro até o início da Copa do Mundo (entre 1º/02 até 31/05), lembrando que em janeiro as equipes brasileiras já estavam jogando os estaduais em pleno verão. Neste período entre fevereiro e maio quem mais jogou foram Fluminense e Palmeiras, 30 jogos cada um. A equipe europeia que mais atuou no período foi o PSG com 28 jogos.
Ainda em comparação, o Flamengo também fez 28 jogos enquanto o Chelsea entrou em campo 23 vezes. O Botafogo entrou em campo 26 vezes, o Real Madrid jogou 27 jogos, assim como a Inter de Milão. Já o Bayern entrou em campo 21 vezes e o Porto apenas 17 jogos.
É óbvio que são momentos distintos, enquanto as partidas dos europeus é na fase final da temporada, os times brasileiros estão na fase inicial. E ainda assim, o número de lesões musculares nos times brasileiros foi superior ao dos times europeus no mesmo período.
Quando a disputa é do Mundial de Clubes, realizado em dezembro, os europeus estão no meio da temporada, enquanto os brasileiros estão realizando mais de 70 partidas, e não vemos as desculpas de cansaço por aqui. O Botafogo no ano passado, venceu a Libertadores, três dias depois entrava em campo contra o Palmeiras pelo título brasileiro e no dia seguinte viajou para encarar o Pachuca do México dois dias depois e foi derrotado. Mas a nossa imprensa vira-lata preferiu diminuir o futebol brasileiro o relegando como uma força periférica e enfraquecida diante de continentes como asiático, africano e da América do Norte.
Mas diante dos desempenhos das equipes europeias na Copa do Mundo de Clubes, onde os brasileiros estão fazendo frente e colocando dificuldades nos times de lá, os especialistas brasileiros preferem alegar cansaço, forte calor e desinteresse por parte dos jogadores europeus.
Vamos lembrar que a Copa do Mundo de seleções no ano que vem será disputada no mesmo período de agora e no mesmo país, ou seja, forte calor e final de temporada europeia, será que em caso de fracasso europeu, nossos vira-latas irão alegar as mesmas desculpas atuais?
A verdade é que o futebol brasileiro, especificamente de clubes, tem evoluído muito dentro de campo. Temos visto variações táticas, intensidade alta, aplicação tática dos jogadores, e em várias partidas do campeonato brasileiro o que se vê quando elogiam as partidas é: “parece um jogo da Premier League”.
Vejo nessa Copa do Mundo alguns times da elite mundial, e sim, eles são europeus. Bayer, Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e Inter continuam sendo favoritos ao título, mas não irei me surpreender caso um time brasileiro vença a competição. A distância não é tão grande assim como querem fazer você pensar.
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