MARCELO NEVES
Escândalo das Apostas
MARCELO NEVES
Estamos diante de um dos maiores escândalos do futebol brasileiro. A operação Penalidade Máxima, desencadeada pelo Ministério Público de Goiás, tem mostrado o envolvimento de uma máfia de apostadores e jogadores das mais variadas divisões do futebol brasileiro.
Mas se engana quem pense que isso é novidade. Na década de 80, a Revista Placar revelou o maior esquema de manipulação de resultados até então. Ainda não existiam casas de apostas no país, mas com o advento da loteria esportiva, muitos aliciadores começaram a procurar clubes, técnicos e jogadores para garantir os resultados, algo que influenciava no resultado em sim da partida, e não apenas com cartões, faltas e escanteios como o esquema atual.
Lá em 1982, foram 125 envolvidos no esquema de manipulação que envolveu, inclusive dois campeões mundiais pela seleção brasileira, (Marco Antônio e Amarildo), além de cartolas e árbitros. A Polícia Federal concluiu as investigações em 1985, e apenas 20 pessoas foram indiciadas por falta de provas mais concretas.
Casos de pagamentos para o goleiro falhar, para o árbitro poder facilitar a vitória do time x, um cartola mandar o time perder, eram as formas que agiam os aliciadores na época. Inclusive o filme Boleiros, de Ugo Giorgetti retrata um caso desses, em que o personagem de Luís Augusto, um árbitro, manda voltar a cobrança de pênaltis três vezes até que acertassem o gol.
A Itália também conviveu com o mesmo esquema na década de 80, o que levou Paolo Rossi a ficar suspenso por 23 meses, voltando a jogar no final da temporada de 1981, o que o ainda fez ser convocado para a Copa do Mundo de 82, fazer três gols que eliminou o Brasil e terminar como campeão e artilheiro daquela Copa. Feito que, inclusive, anistiou muitos envolvidos naquele esquema.
Outros casos de escândalos voltaram a acontecer na Itália, o que gerou até o rebaixamento da poderosa Juventus e a perda dos títulos conquistados por ela. A Inglaterra é outro país que sempre aparecem casos de jogadores envolvidos em apostas e manipulação de resultados.
Quem não se lembra do ex-árbitro Edílson de Carvalho que manipulou o resultado de 11 partidas em 2005, o que fez a CBF voltar os jogos e dar a chance do Corinthians ser o campeão daquele ano. O caso Ivens Mendes em 1997 que envolveu Mario Celso Petraglia, presidente do Athletico-PR, e Alberto Dualib, presidente do Corinthians, para que seus times fossem beneficiados pela arbitragem. O caso culminou com o afastamento dos dirigentes, o banimento de Mendes e o cancelamento dos rebaixamentos de Fluminense e Bragantino.
Outros esportes também tem casos de manipulação e fraudes nas apostas, tênis, boxe, mma, basquete, nenhum deles está imune aos aproveitadores e bandidos que se aproveitam de certas situações para ganhar vantagens, e claro, a falta de caráter dos atletas que se vendem por migalhas e pelo dinheiro fácil, pondo em risco suas carreiras.
As casas de apostas entraram com tudo no Brasil, apesar de suas sedes serem de fora do país, mas elas não são as vilãs, pelo contrário, elas sofrem perdas milionárias com as manipulações, são vítimas como os clubes estão sendo nos casos atuais.
Diferente da década de 80 em que se apostava no resultado em si, hoje se aposta em praticamente tudo. Quantos escanteios terá em determinado tempo ou na partida, que o jogador x vai receber um cartão amarelo ou vermelho, que o time y fará um pênalti, que o fulano fará tantas faltas no jogo, e assim por diante. É algo que foge ao controle dos clubes.
Proibir as casas de apostas é a solução?
Óbvio que não, como falei antes, as casas de apostas são vítimas. O necessário é controlar as situações, regulamentar as casas de apostas, o que vai gerar a cobrança de impostos e dar autonomia para que as mesmas possam anular jogos de suas plataformas com volumes de apostas suspeitas.
Banir do esporte os jogadores envolvidos no esquema como punição exemplar e que os demais jogadores pensem duas vezes antes de se meter com bandidos. A prisão dos aliciadores é necessária e o rigor em suas punições não podem ser deixadas de lado.
Um jogador como Eduardo Baurmann do Santos, bem sucedido, jogando em um dos maiores clubes do mundo, com bom salário e valorizado, não pode se vender por 50 mil reais. Sabemos que a grande maioria dos jogadores no Brasil recebem um salário mínimo e atuam por quatro ou cinco meses no ano. Sabemos que passam por dificuldades quando não estão jogando, e aqui entra uma reformulação geral no futebol brasileiro.
É preciso que a CBF modifique o calendário do futebol brasileiro, para que atletas de clubes menores tenham um calendário cheio no ano e possam sustentar seus atletas, que seja feita um plano de carreira com jogadores da base, onde possam aprender sobre a gestão de sua carreira, passando até por uma educação financeira.
É claro que os esquemas jamais irão desaparecer do mundo esportivo, aqui mesmo citei exemplos de mais de 40 anos. Mas é necessário que se criem ferramentas para diminuir e inibir quem queira fazer uma manipulação. É necessário que não se mate a emoção do torcedor de ir ao estádio e não se sentir enganado.
O futebol não pode ficar a mercê de bandidos e de vagabundos que querem se aproveitar das situações.
MARCELO NEVES
Uma Copa do Mundo de contradições
A Copa do Mundo de Clubes entra na última rodada da fase de grupos, e assim como na Copa do Mundo de seleções, surpresas e favoritos mostram sua cara em vários jogos, assim como algumas zebras. E isso tem sido evidente até aqui. Exemplos como empate de um Al-Hilal contra o Real Madrid, vitória do Inter Miami diante do Porto e atuações de equipes periféricas que chamam a atenção.
Com as vitórias de Botafogo diante do PSG, a vitória do Flamengo diante do Chelsea e os empates de Fluminense e Palmeiras frente à Borussia Dortmund e Porto respectivamente, aqueles vira-latas da imprensa brasileira sempre puxam as famosas cartas do “europeu joga sem interesse”, “eles não ligam para o torneio”, “é uma pré-temporada de luxo”, e coisas assim.
Agora esse mesmo vira-latismo (termo muito utilizado por Nélson Rodrigues) começou a usar a desculpa do cansaço e do calor enfrentado pelos times europeus. Mas será mesmo que esses aspectos afetam apenas os times europeus? Em um balanço feito pelo site Sofascore em partidas realizadas nos últimos 12 meses, nenhum time europeu jogou mais de 60 jogos no período, vejam na imagem abaixo:

Ou seja, antes da Copa do Mundo iniciar, o Flamengo foi quem mais atuou no período com 77 jogos disputados, enquanto o time europeu com mais jogos disputados foi o Real Madrid com 62 jogos. Mas aí você pode dizer que os times brasileiros tiveram férias no período enquanto os europeus continuaram atuando.
Então vamos fazer um balanço de fevereiro até o início da Copa do Mundo (entre 1º/02 até 31/05), lembrando que em janeiro as equipes brasileiras já estavam jogando os estaduais em pleno verão. Neste período entre fevereiro e maio quem mais jogou foram Fluminense e Palmeiras, 30 jogos cada um. A equipe europeia que mais atuou no período foi o PSG com 28 jogos.
Ainda em comparação, o Flamengo também fez 28 jogos enquanto o Chelsea entrou em campo 23 vezes. O Botafogo entrou em campo 26 vezes, o Real Madrid jogou 27 jogos, assim como a Inter de Milão. Já o Bayern entrou em campo 21 vezes e o Porto apenas 17 jogos.
É óbvio que são momentos distintos, enquanto as partidas dos europeus é na fase final da temporada, os times brasileiros estão na fase inicial. E ainda assim, o número de lesões musculares nos times brasileiros foi superior ao dos times europeus no mesmo período.
Quando a disputa é do Mundial de Clubes, realizado em dezembro, os europeus estão no meio da temporada, enquanto os brasileiros estão realizando mais de 70 partidas, e não vemos as desculpas de cansaço por aqui. O Botafogo no ano passado, venceu a Libertadores, três dias depois entrava em campo contra o Palmeiras pelo título brasileiro e no dia seguinte viajou para encarar o Pachuca do México dois dias depois e foi derrotado. Mas a nossa imprensa vira-lata preferiu diminuir o futebol brasileiro o relegando como uma força periférica e enfraquecida diante de continentes como asiático, africano e da América do Norte.
Mas diante dos desempenhos das equipes europeias na Copa do Mundo de Clubes, onde os brasileiros estão fazendo frente e colocando dificuldades nos times de lá, os especialistas brasileiros preferem alegar cansaço, forte calor e desinteresse por parte dos jogadores europeus.
Vamos lembrar que a Copa do Mundo de seleções no ano que vem será disputada no mesmo período de agora e no mesmo país, ou seja, forte calor e final de temporada europeia, será que em caso de fracasso europeu, nossos vira-latas irão alegar as mesmas desculpas atuais?
A verdade é que o futebol brasileiro, especificamente de clubes, tem evoluído muito dentro de campo. Temos visto variações táticas, intensidade alta, aplicação tática dos jogadores, e em várias partidas do campeonato brasileiro o que se vê quando elogiam as partidas é: “parece um jogo da Premier League”.
Vejo nessa Copa do Mundo alguns times da elite mundial, e sim, eles são europeus. Bayer, Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e Inter continuam sendo favoritos ao título, mas não irei me surpreender caso um time brasileiro vença a competição. A distância não é tão grande assim como querem fazer você pensar.
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