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Presidente da OAB-MT: “Temos que normalizar a vida pós covid-19”

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Gisela Alves Cardoso, primeira mulher a presidir a seccional da OAB-MT, não teve caminho fácil até o posto. Natural de Presidente Prudente (SP), a advogada chegou a Colíder (MT) em 1982, aos seis anos de idade. Estudou em escola pública, deu aulas de inglês e, durante os cinco anos da faculdade de Direito cursada em Cuiabá, trabalhou como bancária. Formou-se em 2001, quando também passou no Exame da Ordem. A partir de então, foi seguir a sua paixão: o direito. 

Desde 2016, a advogada atua institucionalmente na diretoria da OAB-MT e, na OAB Nacional, atualmente é coordenadora adjunta do Colégio de Presidentes. Ela ressalta que sua gestão já começou lidando com os rescaldos da covid-19. “O Poder Judiciário manteve-se, na maior parte do tempo, fechado. A advocacia, por outro lado, não parou”, lembra. Esse desafio se acirrou no início do ano, quando a seccional de Mato Grosso defendeu veementemente a reabertura das portas do Judiciário. 

“Com o advento da vacina e a imunização cada vez maior, teremos que normalizar a vida, mantendo cuidados sanitários, o respeito com a vida do outro, mas ir adiante”, defende a presidente da seccional do Mato Grosso.  

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

CFOAB – Qual é a importância da OAB para a advocacia?

Gisela Cardoso – A OAB é o porto seguro da advocacia, o farol que nos guia. A Ordem atua incansavelmente pela dignidade dos advogados e advogadas, pela valorização da profissão e seus honorários, garantia de suas prerrogativas, lembrando sempre que, ao fazer isso, garante também um direito do cidadão, de ser representado por um profissional que pode atuar de forma livre, com suas prerrogativas preservadas. A OAB representa ainda a voz da sociedade civil organizada, atuando em constante defesa das garantias constitucionais e do Estado Democrático de Direito.

CFOAB – Qual é a importância da OAB na sua vida?

Gisela Cardoso – Na minha vida, a OAB é base, é apoio, a instituição que me representa. Agora tenho a honra de estar à frente da seccional de Mato Grosso, como presidente, em um momento histórico de ascensão da mulher no sistema OAB, em consonância com o que vem acontecendo, de uma forma mais acelerada, nas últimas décadas na sociedade. Exalto o projeto paridade, que nos deu um impulso para ocuparmos mais espaços, diminuindo as diferenças ainda existentes entre homens e mulheres.

CFOAB – Pode contar um pouco da sua história com a advocacia, de onde surgiu o interesse?

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Gisela Cardoso – Fui a primeira advogada na minha família. Desde criança sempre tive o senso de “justiça” muito destacado, sempre saía em defesa daqueles que eu acreditava estarem sendo injustiçados. Após concluir a faculdade, trabalhei em dois grandes escritórios da capital até abrir meu próprio escritório. Hoje, com mais de 20 anos exercendo a advocacia, ainda mantenho a mesma paixão pela minha profissão.

CFOAB – No lançamento da campanha contra o assédio, a senhora contou ter ouvido que uma mulher não poderia ocupar a presidência da OAB-MT. A senhora enfrentou afirmações do tipo e provou o contrário. Mas a persistência de falas como essa afeta mulheres de que forma?

Gisela Cardoso – Infelizmente, ainda ouvimos manifestações como essa. A mulher ainda tem que impor sua presença em muitos espaços, para combater a desigualdade de gênero. É preciso ter muita consciência de si, para não se deixar abater por falas machistas. A ascensão feminina é um caminho sem volta e queremos galgá-la lado a lado com os homens. Para isso, é preciso que eles reflitam sobre respeito, partilha de tarefas domésticas, cuidados com os filhos, paridade de gênero. Acredito muito nessa parceria entre homens e mulheres, para darmos um passo à frente.

CFOAB – Qual é a importância de a advocacia do estado ter uma mulher a representando?

Gisela Cardoso – Tenho conversado bastante com advogadas e outras mulheres e o que elas me dizem é que ficam encorajadas a alçar voos mais altos, quando verificam que uma de nós alcançou um cargo historicamente ocupado por homens. E Mato Grosso é um estado onde as relações de gênero ainda são muitas vezes violentas, o feminicídio é uma realidade, assim como outras formas de agressão à mulher. Creio que o fato de a OAB-MT ter uma mulher presidente é uma quebra de paradigmas, soa como uma mensagem assim: mulher, você pode estar onde quiser.

CFOAB – Esta é a primeira gestão depois da decisão da paridade. Como a senhora entendia a paridade e como a vê agora?

Gisela Cardoso – Entendo que toda e qualquer política afirmativa que objetiva a redução da desigualdade de gênero será sempre bem-vinda. E a OAB, como casa das democracias, dá um importante exemplo para a sociedade ao instituir a paridade de gênero em suas eleições.

CFOAB – Com mais mulheres nas direções e presidências de seccionais, o horizonte para vermos uma mulher na presidência do Conselho Federal está mais próximo? 

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Gisela Cardoso – Eu espero que sim. Espero que seja apenas o início de uma nova era no sistema, mais igualitária, mais justa e que em breve possamos ter uma advogada presidente do Conselho Federal.

CFOAB – Quais são as suas prioridades à frente da gestão?

Gisela Cardoso – A atual diretoria da OAB-MT está em consonância com a direção nacional da Ordem. O que queremos é nossa instituição focada nas necessidades da advocacia, fortalecendo a luta por honorários dignos e prerrogativas garantidas. Ademais, esperamos contribuir com as causas sociais, sem qualquer viés político, pensando no bem comum.

CFOAB – Como é ser dirigente de Ordem no período da maior pandemia da história? Momento em que toda a sociedade, incluindo a advocacia, sofreu perdas pessoais, econômicas? Quais lições desse período ficam de aprendizado para ações futuras?

Gisela Cardoso – Fomos pegos de surpresa por esta pandemia, que ceifou vidas. A advocacia e a sociedade não estavam preparadas para enfrentar esta crise; tivemos que nos reinventar. Da noite para o dia, o trâmite se virtualizou. O Poder Judiciário manteve-se, na maior parte do tempo, fechado. A advocacia, por outro lado, não parou. Almejando o mesmo objetivo, que é a entrega da prestação jurisdicional, todos os atores do sistema judicial enfrentaram dificuldades. Os serviços online nem sempre atenderam às necessidades, principalmente as urgentes. No início deste ano, a seccional do Mato Grosso defendeu veementemente a reabertura das portas do Judiciário. Isso porque, com o advento da vacina e a imunização cada vez maior, teremos que normalizar a vida após a covid-19, mantendo cuidados sanitários, o respeito com a vida do outro, mas temos de ir adiante. 

CFOAB – Qual a mensagem a senhora gostaria de deixar para as advogadas? Para as estudantes de direito que ainda sonham com a carteira da OAB?

Gisela Cardoso – Todo sonho começa com o desejo. Partindo daí, é arregaçar as mangas e estudar, porque o Direito é um universo vasto. Qualificar-se ao máximo, alicerçando sempre na ética e na boa conduta. E, como dizia o emblemático advogado Sobral Pinto, é preciso ter coragem, porque advocacia não é profissão para covardes. Às mulheres, que desejam ser advogadas, espero por vocês. Este é sim um ambiente feminino, cada vez mais. Repito: a mulher pode estar onde quiser.

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Renato Nery: sua morte exige voz, justiça e memória

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A morte brutal do advogado e ex-presidente da OAB-MT, Dr. Renato Gomes Nery, não pode ser tratada com indiferença. Trata-se de um crime que atinge diretamente a advocacia e a democracia. Renato foi um homem honrado, combativo e comprometido com a justiça — sua memória exige respeito e posicionamento firme por parte da sociedade e das instituições.

É inaceitável que um colega de trajetória tão marcante seja silenciado sem uma reação proporcional à gravidade do que ocorreu. Tive a honra de iniciar minha vida institucional na OAB-MT como conselheiro estadual em sua gestão. Conheci de perto o homem e o advogado.

Como ex-presidente da OAB-MT, tenho a obrigação de falar de Renato Nery. Não posso me calar diante da execução de um colega que também ocupou essa honrosa função. A presidência da Ordem não é apenas um cargo: é um compromisso com a defesa intransigente da advocacia e da democracia. Renato honrou essa missão com coragem, combatividade e senso de justiça.

A execução do colega, agora apontada pelas investigações como motivada por disputas fundiárias, exige não apenas uma rigorosa apuração policial, mas também uma profunda reflexão sobre os riscos enfrentados pelos que exercem a advocacia com independência e compromisso. O advogado precisa ter, acima de tudo, segurança para atuar. Sem isso, toda a estrutura democrática se fragiliza.

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É essencial que todos os desdobramentos do crime sejam investigados com máxima seriedade, inclusive aqueles de natureza patrimonial – para afastar oportunistas. Nada pode ser omitido ou minimizado. Só assim evitaremos injustiças irreparáveis e honraremos verdadeiramente a memória de Renato.

Neste momento em que prisões foram realizadas, inclusive de pessoas apontados como mandantes, é justo reconhecer o trabalho diligente dos órgãos de segurança pública, especialmente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa. A atuação firme e técnica tem sido crucial para elucidar os fatos e oferecer respostas à sociedade.

À família de Renato, deixo minha solidariedade mais sincera. Que o legado de integridade, coragem e compromisso deixado por ele sirva como farol para todos os que ainda acreditam no poder transformador da advocacia e na força da verdade.

Renato Nery merece ser lembrado, respeitado e defendido — em vida e na memória. Seu nome não pode ser esquecido, nem a sua luta ignorada.

Por Ussiel Tavares, advogado e ex-presidente da OAB-MT

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