JURÍDICO
Barroso abre encontro de magistradas e exalta conquistas femininas
JURÍDICO
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, abriu o 1º Encontro Nacional de Magistradas Integrantes de Cortes Eleitorais na manhã desta quarta-feira (9). Durante todo o dia de hoje, ministras, desembargadoras e juízas de todo Brasil vão discutir os desafios a serem enfrentados pelas mulheres durante as próximas eleições – sejam eleitoras, candidatas ou integrantes do Sistema de Justiça como um todo.
No pronunciamento, Barroso enfatizou que a participação feminina na política e o enfrentamento das discriminações são temas que finalmente entraram na agenda nacional e conquistaram muitos corações e mentes. “A igualdade é um dos pressupostos e objetivos da democracia. Precisamos enfrentar historicamente a desigualdade feminina em seus diferentes planos”, ressaltou o presidente da Corte.
Barroso pontuou algumas conquistas femininas obtidas nos últimos anos, como a conquista do voto feminino; a consagração da união estável e importantes mudanças legislativas de combate à violência sexual e doméstica. Contudo, reconheceu que, embora isso pareça natural e óbvio, ainda existe muita resistência e incompreensão. “Portanto não dá para abaixar a guarda, pelo contrário, é preciso avançar nesta luta usando os melhores argumentos da razão e consciente de que se trata de uma causa da humanidade, da dignidade humana”.
Mesa de Honra
Além do ministro Barroso, compuseram a mesa de honra virtual o vice-presidente do TSE, ministro Edson Fachin; a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármem Lúcia; o diretor da Escola Judiciária Eleitoral do TSE (EJE/TSE), ministro Carlos Horbach; a vice-diretora da EJE/TSE, ministra Maria Claudia Bucchianeri, a presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), juíza Renata Gil; o diretor-presidente da Escola Nacional da Magistratura (ENM), desembargador Caetano Levi Lopes; e a diretora de promoção da igualdade racial da AMB, juíza Flavia Carvalho.
O ministro Fachin fez um breve relato dos 90 anos da Justiça Eleitoral e lamentou os baixos percentuais de participação feminina nos Poderes Judiciário e Legislativo, que continuam abaixo dos 20%. “Estes resultados estão longe de se mostrarem satisfatórios. É um atestado de avanço com selo de sub-representatividade”, afirmou.
Fachin ressaltou que a constatação de que a violência política de gênero está cada vez mais presente nos indica um cenário preocupante e afeta profundamente a democracia brasileira. “Jamais haverá democracia onde houver violência. Nossa vida pública deve ser marcada pelo pluralismo, pela diversidade e pela igualdade”, enfatizou.
A ministra Cármem Lúcia ressaltou que a luta pela igualdade feminina ainda precisa trilhar um longo caminho. “Demos muitos passos, mas ainda temos um longo caminho pela frente para que a premissa de que todos são iguais perante a lei, se torne efetivo e eficaz jurídica e socialmente. Segundo a ministra, as mulheres não querem apenas representação: “Queremos apresentação. Queremos estar presentes. Não somos invisíveis”, afirmou.
O ministro Carlos Horbach enfatizou que a inclusão das mulheres é uma preocupação do Poder Judiciário e lamentou que de um total de 392 integrantes nos órgãos colegiados da Justiça Eleitoral, apenas 62 sejam mulheres (16.8%). A ministra Maria Claúdia Bucchianeri destacou a importância do seminário para mapear a realidade dos TREs no Brasil, discutir como as questões femininas estão sendo equacionadas pelas cortes eleitorais e realizar um diagnóstico de como pensa a face feminina da Justiça Eleitoral brasileira.
Renata Gil relatou que um estudo do Fórum Econômico Mundial indica que o Brasil levaria 135 anos para acabar com a lacuna de gêneros no país. “Vamos precisar de muita luta para que essa página seja virada e que esse tempo longo seja suprimido”. O desembargador Caetano Levi Lopes, destacou que a aceleração dessa mudança passa necessariamente pela educação e pela formação de parcerias efetivas para que essas mudanças substanciais possam acontecer.
Flávia Carvalho destacou que o cenário político brasileiro reflete a nossa sociedade, ainda cheia de contradições e profundamente desigual na perspectiva de gênero e de raça. “Eis aí o nosso desafio: construir uma sociedade livre, justa, solidária e igualitária, sobretudo sob a perspectiva de gênero e raça”.
Homenagem
No encerramento da cerimônia, o presidente do TSE foi homenageado pela EJE/TSE e pela AMB, em um vídeo conjunto, que destaca a atuação em favor da valorização e do aumento da participação feminina nas esferas de poder público e político, bem como pelas ações efetivadas pelo TSE relativas ao tema durante a sua administração à frente do Tribunal.
Visivelmente emocionado, Barroso reiterou a convicção de que ninguém é bom demais e, sobretudo, ninguém é bom sozinho. Ele agradeceu a todos os servidores da Justiça Eleitoral que, em sua gestão, formaram um time que se empenhou pelo Brasil em um tempo difícil marcado por questões sanitárias, políticas e institucionais.
Organizado pela Escola Judiciária Eleitoral do TSE, em parceria com a Associação dos Magistrados Brasileiros e a Escola Nacional da Magistratura, o evento on-line tem como tema “O trato das questões femininas pela Justiça Eleitoral”. Na pauta, o problema das candidaturas fictícias (mulheres que entram nas chapas apenas para compor a proporção mínima exigida por lei), os gastos partidários com as campanhas eleitorais de mulheres e o combate à violência política contra a mulher.
MC/CM, DM
ARTIGOS
Renato Nery: sua morte exige voz, justiça e memória
A morte brutal do advogado e ex-presidente da OAB-MT, Dr. Renato Gomes Nery, não pode ser tratada com indiferença. Trata-se de um crime que atinge diretamente a advocacia e a democracia. Renato foi um homem honrado, combativo e comprometido com a justiça — sua memória exige respeito e posicionamento firme por parte da sociedade e das instituições.
É inaceitável que um colega de trajetória tão marcante seja silenciado sem uma reação proporcional à gravidade do que ocorreu. Tive a honra de iniciar minha vida institucional na OAB-MT como conselheiro estadual em sua gestão. Conheci de perto o homem e o advogado.
Como ex-presidente da OAB-MT, tenho a obrigação de falar de Renato Nery. Não posso me calar diante da execução de um colega que também ocupou essa honrosa função. A presidência da Ordem não é apenas um cargo: é um compromisso com a defesa intransigente da advocacia e da democracia. Renato honrou essa missão com coragem, combatividade e senso de justiça.
A execução do colega, agora apontada pelas investigações como motivada por disputas fundiárias, exige não apenas uma rigorosa apuração policial, mas também uma profunda reflexão sobre os riscos enfrentados pelos que exercem a advocacia com independência e compromisso. O advogado precisa ter, acima de tudo, segurança para atuar. Sem isso, toda a estrutura democrática se fragiliza.
É essencial que todos os desdobramentos do crime sejam investigados com máxima seriedade, inclusive aqueles de natureza patrimonial – para afastar oportunistas. Nada pode ser omitido ou minimizado. Só assim evitaremos injustiças irreparáveis e honraremos verdadeiramente a memória de Renato.
Neste momento em que prisões foram realizadas, inclusive de pessoas apontados como mandantes, é justo reconhecer o trabalho diligente dos órgãos de segurança pública, especialmente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa. A atuação firme e técnica tem sido crucial para elucidar os fatos e oferecer respostas à sociedade.
À família de Renato, deixo minha solidariedade mais sincera. Que o legado de integridade, coragem e compromisso deixado por ele sirva como farol para todos os que ainda acreditam no poder transformador da advocacia e na força da verdade.
Renato Nery merece ser lembrado, respeitado e defendido — em vida e na memória. Seu nome não pode ser esquecido, nem a sua luta ignorada.
Por Ussiel Tavares, advogado e ex-presidente da OAB-MT
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