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Seguro Rural e Mitigação de Riscos: A Nova Fronteira da Política Agrícola Brasileira

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AGRONEGÓCIO

agronegócio brasileiro é um dos setores mais dinâmicos e estratégicos da economia nacional, representando cerca de 25% do PIB e consolidando-se como um dos maiores exportadores de commodities agrícolas do mundo.

O crescimento do setor tem sido impulsionado por ganhos de produtividade, inovação tecnológica e expansão das áreas cultiváveis. No entanto, as políticas públicas voltadas ao setor, em especial o Plano Safra, não têm acompanhado essa evolução de maneira proporcional.

A cada ano, observa-se um aumento nominal nos recursos disponibilizados pelo Plano Safra, mas esse incremento não é suficiente para suprir a demanda crescente por crédito. Mais do que isso, o modelo tradicional de financiamento rural, baseado em subsídios e crédito oficial, tem mostrado sinais de esgotamento diante da complexidade do setor.

A dependência excessiva do crédito subsidiado não só limita a capacidade do governo de ampliar sua atuação como também restringe a adoção de soluções inovadoras de financiamento.

Diante desse cenário, torna-se essencial repensar a estrutura da política agrícola brasileira, migrando o foco do crédito rural subsidiado para gestão de riscos, governança no campo e fortalecimento do mercado privado de financiamento.

seguro rural, por exemplo, tem se destacado como um dos programas mais eficientes e de alto impacto na mitigação de riscos, promovendo sustentabilidade financeira e previsibilidade para os produtores.

Plano Safra e o descompasso com o crescimento do agronegócio

Historicamente, o Plano Safra tem sido o principal instrumento do governo para fomentar o crédito rural. A cada ano, os valores anunciados são elevados, gerando a impressão de que o financiamento agrícola está sendo ampliado.

No entanto, a realidade mostra que esse crescimento não tem sido suficiente para atender à demanda do setor.

Na safra 2023/2024, o governo anunciou um volume recorde de R$ 400,7 bilhões, um aumento de 12% em relação ao período anterior. Esse crescimento, no entanto, não acompanha a expansão do agronegócio brasileiro, que frequentemente supera esse percentual.

Enquanto o crédito rural cresceu a uma média real de 5,7% ao ano entre 2007 e 2018, o saldo do crédito rural em relação ao PIB agropecuário passou de 78,2% para 109% no mesmo período.

Isso significa que, mesmo com a ampliação dos recursos do Plano Safra, a demanda por financiamento agrícola tem crescido a uma velocidade muito superior.

Além disso, a concentração dos recursos do Plano Safra em determinados segmentos prejudica a democratização do crédito, uma vez que os muitos produtores enfrentam dificuldades no acesso aos financiamentos devido à complexidade dos processos e à rigidez das exigências bancárias.

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Como resultado, muitos agricultores buscam alternativas no setor privado, que vem se fortalecendo rapidamente.

O crescimento do crédito privado e o papel do mercado de capitais

Com a limitação do crédito público, o mercado de crédito privado tem se consolidado como uma alternativa eficiente e competitiva para financiar o agronegócio. Instrumentos financeiros como Cédula de Produto Rural (CPR), Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) ganharam força, permitindo que produtores acessem capital sem depender exclusivamente de recursos governamentais.

Em 2024, o estoque de LCAs atingiu R$ 471 bilhões, registrando um crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Esse volume evidencia a crescente participação do mercado de capitais no financiamento agrícola, oferecendo taxas competitivas e estruturas de crédito mais alinhadas às necessidades do setor.

Outro exemplo do avanço do crédito privado é a CPR, que tem se consolidado como um dos principais mecanismos de captação de recursos no agro. Entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023, o estoque de CPR cresceu 81%, saltando de R$ 128,81 bilhões para R$ 232,58 bilhões.

Esses dados mostram que o mercado privado já atingiu um nível de maturidade capaz de atender a maior parte da demanda do setor, reduzindo a necessidade de subsídios governamentais para crédito.

A importância da governança e da profissionalização no campo

A crescente complexidade do agronegócio exige que os produtores rurais adotem práticas mais avançadas de gestão e governança. A profissionalização da atividade agropecuária é um fator essencial para garantir a sustentabilidade financeira e operacional das propriedades rurais. Os produtores que adotam boas práticas de governança, fazem planejamento estratégico e investem em gestão de riscos têm acesso a condições de financiamento mais favoráveis e menores custos operacionais.

Além disso, a busca por financiamento no mercado privado exige que os produtores melhorem a qualidade da sua gestão financeira, implementem controles rigorosos e adotem práticas sustentáveis. Isso porque investidores e instituições financeiras avaliam não apenas a viabilidade econômica dos projetos, mas também a conformidade ambiental, social e climática das operações agropecuárias.

Dessa forma, a construção de políticas públicas deve incentivar a profissionalização do setor, promovendo educação financeira, acesso à tecnologia e mecanismos de mitigação de riscos.

O fortalecimento da governança no campo é um fator essencial para garantir a competitividade do agronegócio brasileiro no cenário global.

Políticas agrícolas focadas na gestão de riscos

Diante das transformações no setor, torna-se evidente que o crédito subsidiado não pode mais ser o eixo central da política agrícola nacional. Em vez disso, o foco deve estar na gestão de riscos, garantindo que os produtores estejam protegidos contra volatilidades de mercado, mudanças climáticas e oscilações nos preços das commodities.

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O seguro rural tem se mostrado uma das ferramentas mais eficientes nesse sentido. Em 2024, o governo destinou R$ 882 milhões em subvenção ao prêmio do seguro rural, possibilitando a contratação de mais de 116 mil apólices, cobrindo 6,3 milhões de hectares e garantindo um valor segurado de R$ 45 bilhões.

O seguro rural não apenas protege o produtor contra perdas, mas também contribui para a redução da inadimplência no setor e melhora a percepção de risco dos investidores e instituições financeiras.

Dessa forma, um produtor que investe em seguro rural e adota boas práticas de governança têm maior facilidade de acesso ao crédito privado e pode negociar taxas de juros mais vantajosas.

Investir na ampliação do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) pode ser um caminho eficiente para fortalecer a resiliência do setor agropecuário, reduzindo a necessidade de intervenção governamental e garantindo maior previsibilidade aos produtores.

O agronegócio brasileiro atingiu um nível de desenvolvimento que exige uma nova abordagem para a política agrícola nacional. O modelo tradicional, baseado no crédito subsidiado, já não atende à realidade do setor, que hoje conta com um mercado privado maduro e um mercado de capitais robusto.

O governo deve reavaliar sua estratégia e concentrar esforços na mitigação de riscos, fortalecimento do seguro rural e incentivo à governança e profissionalização no campo.

Programas de crédito subsidiado podem continuar existindo, mas devem ser cada vez mais direcionados a segmentos específicos, como pequenos produtores e atividades de maior risco.

A realidade é clara: o que nos trouxe até aqui não será suficiente para nos levar ao futuro. A transformação da política agrícola nacional é urgente, e a adoção de um modelo baseado na gestão de riscos e na previsibilidade financeira pode garantir um agronegócio mais sólido, sustentável e preparado para os desafios do futuro.

Ex-Diretor de Gestão de Risco da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), bacharel em Direito e Administração, e se especializando em Agronegócio pela Esalq/USP. Atualmente, atua como Consultor Técnico da Câmara Temática de Gestão de Risco Agropecuário do MAPA e é sócio e consultor da AgroStratégia Consultoria e Negócios.
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Crédito ao agro pode atingir R$ 652 bilhões, mas esbarra em limites fiscais

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As negociações para o Plano Safra 2026/27 avançam em meio a discussões sobre o espaço fiscal disponível para subsidiar o crédito rural. A proposta em análise pelo governo prevê ampliar em cerca de 10% os recursos destinados ao financiamento da agropecuária, elevando o montante total para R$ 652 bilhões, além de reduzir em até dois pontos percentuais as taxas de juros para médios e grandes produtores.

Os números ainda estão em discussão entre os ministérios da Agricultura, da Fazenda e do Desenvolvimento Agrário e podem sofrer alterações antes do anúncio oficial, previsto para o início de julho. A principal incógnita é a capacidade do Tesouro Nacional de suportar os custos da equalização dos juros em um cenário de restrições orçamentárias.

Na safra atual, foram disponibilizados R$ 594,4 bilhões para pequenos, médios e grandes produtores. Desse total, R$ 516,2 bilhões foram destinados à agricultura empresarial. A proposta em análise é elevar esse montante para perto de R$ 570 bilhões na temporada 2026/27.

A discussão sobre os juros é considerada o ponto mais sensível das negociações. Caso a proposta seja integralmente atendida, as taxas para médios e grandes produtores poderão cair para cerca de 8% ao ano nas operações de custeio e para até 6,5% em algumas linhas de investimento. Na safra 2025/26, as taxas variaram entre 10% e 14% nas linhas de custeio da agricultura empresarial.

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A possibilidade de redução das taxas depende do início do ciclo de queda da Selic e do espaço fiscal disponível para a equalização dos juros. O mecanismo é utilizado pelo governo para cobrir a diferença entre o custo de captação das instituições financeiras e a taxa efetivamente paga pelos produtores.

Outra frente das negociações envolve os limites para os spreads bancários. A equipe econômica decidiu manter tetos para o custo administrativo e tributário cobrado pelas instituições financeiras nas operações com recursos equalizados. A medida busca evitar aumento excessivo do custo final do crédito e reduzir a pressão sobre os gastos públicos com subsídios.

No custeio empresarial, por exemplo, o limite para o spread foi fixado em 4,7% ao ano. Quanto maior esse percentual, maior tende a ser o desembolso da União para sustentar as taxas subsidiadas.

A estratégia ocorre em um momento em que instrumentos privados de financiamento ganham espaço no campo. Entre julho de 2025 e maio de 2026, as operações realizadas por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs) e recursos livres movimentaram cerca de R$ 170 bilhões. Os títulos privados passaram a integrar os números do Plano Safra recentemente e vêm compensando parte da retração observada nas linhas tradicionais de crédito.

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Na agricultura familiar, a expectativa é de manutenção das taxas de juros entre 2% e 6% ao ano. O volume de recursos para o segmento poderá chegar a R$ 82 bilhões, alta de cerca de 5% em relação aos R$ 78,2 bilhões disponibilizados na temporada atual.

Os desembolsos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) indicam forte demanda pelos recursos. Até maio, os produtores familiares haviam contratado R$ 60,9 bilhões, o equivalente a quase 80% do total disponível para a safra em curso.

A definição do Plano Safra 2026/27 ocorre em um ambiente de custos financeiros ainda elevados e de crescente demanda por recursos para sustentar a expansão da produção agrícola. O desafio do governo será ampliar a oferta de crédito e, ao mesmo tempo, preservar o equilíbrio das contas públicas em um cenário de restrições fiscais.

A expectativa é que os números finais sejam anunciados no início de julho, quando também deverão ser definidos os volumes de recursos e as taxas de juros para a agricultura empresarial e para os programas voltados à agricultura familiar.

Fonte: Pensar Agro

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