CUIABÁ
Search
Close this search box.

Marcelo Porto Carrero

Bons tempos, aqueles dos médicos de outrora.

Publicado em

Marcelo Porto Carrero

Bons tempos, aqueles dos médicos de outrora.

Para algumas pessoas, quando nos referimos ao passado comentando hábitos do presente, há motivos que justifiquem contrair o rosto e até revirar os olhos, isso quando não disparam um incontido “aff”, e nos chamam de conservadores saudosistas.

Pois então, esses, certamente são jovens, moços, como diria o professor, Coronel Octayde, em suas famosas “exortações” aos estudantes nas formaturas da antiga ETF-MT.

Mas como não se referir ao passado com saudade, nós que tivemos a graça de vivê-lo em plenitude? Como não lembrar das conversas tranquilas dos fins de tarde, desassustados dos estranhos que hoje em dia rondam as calçadas onde ainda ontem, no dizer antigo de medir o tempo, estávamos proseando ou dando voltas na Praça Alencastro da Cuiabá de outrora, após as missas nos domingos.

Tempo em que uma ida ao médico significava ser revirado ao avesso, mesmo que para lá tivéssemos ido para consultar sobre uma dor esquisita ou levar uma criança reclamona, para saber se não estava na hora de passar um vermífugo. Exemplos deles foram os Drs. Silvio Curvo, Epaminondas, Vinagre e Artaxerxes – estivessem vivos, seriam testemunhas -, aqui citando apenas alguns, os mais próximos da família. Estes faziam exames clínicos quase completos só com os olhos, o tato e a observação.

Leia Também:  Deixa de ter pressa

Exames complementares mais apurados, eram relativamente raros, só solicitados quando realmente necessário. Época em que era comum irem até as residências dos pacientes. Isso sem falar, que dos mais carentes sequer cobravam a consulta, bastavam um cafezinho da hora, um dedo de proza e um aperto de mão.

Consultar o dentista então, no surgimento de uma dor de dente, era quando o doutor especulava sobre tudo, desde o que a gente comia, como e quantas vezes escovava os dentes no dia, indo até o que púnhamos pra fora. Depois, cutucava tudo com os olhos fixos naquela haste que tinha um espelhinho na ponta, a procura de cáries, mexia nas gengivas, olhava a língua e demais partes, verificando aftas e ou outras enfermidades bucais. Era assim, com os doutores Coronel Torquato, Altair, mais conhecido por Tií, Vasquinho Palma, Manelito Granja e tantos outros que já se foram ao merecido descanso eterno.

Como não dizer: bons tempos, aqueles de outrora. Hoje em dia, guardadas as conhecidas excessões, e são várias, só não cabe cita-las para não ferir suscetibilidades, há cada vez mais especialidades, o que acaba por levar o paciente não só a um doutor, mas a vários, todos respaldados em exames laboratoriais elaborados pelas maiores, mais complexas e capacitadas empresas do ramo.

Leia Também:  A fé e o medo

Tempos modernos, estes sim bons tempos, outros dirão. Certamente baseados em fatores essenciais, até imprescindíveis, considerados os avanços científicos e a ajuda substancial da Inteligência Artificial à medicina.

Não há como discordar dessa realidade alvissareira, mas sim complementa-la em dois aspectos, a necessidade do bom senso, que é agir com lógica e razão, e a sensibilidade, ou seja, o ato de sentir e se emocionar, características humanas que jamais poderão ser substituídas nas relações profissionais entre médicos e pacientes.

Propaganda

Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

Publicados

em

Por

1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

Leia Também:  Pontos, vírgulas, reticências e muito mais

O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

Leia Também:  Nossas praças ignoradas

A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

Continue lendo

CIDADES

POLÍTICA

MULHER

POLÍCIA

MAIS LIDAS DA SEMANA