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MARCELO NEVES

Nível do futebol brasileiro é baixo, mas de quem é a culpa?

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MARCELO NEVES

Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

O Campeonato Brasileiro de 2022 tem mostrado jogos de um nível baixíssimo, inclusive das principais equipes. Jogos sem intensidade, com erros de passe, jogadores dispersos e preparo físico aquém do ideal. Muitos podem dizer que o calendário é culpado, que os técnicos são ruins e que os jogadores não são do nível do futebol europeu.

Tudo isso tem um ponto de verdade, temos um calendário que não permite um treinador preparar de forma razoável a sua equipe. Um jogo a cada três dias e com viagens longas em muitos casos. Um exemplo disso foi a passagem meteórica do Fábio Carille pelo Athletico. Em 21 dias o treinador teve sete jogos e apenas sete dias para treinar sua equipe. E pelos resultados, foi demitido.

Um exemplo da logística é a situação do Cuiabá. O time se encontra no Centro-Oeste do Brasil, e em uma rodada precisa se deslocar para Florianópolis, três dias depois joga em Cuiabá e mais três dias precisa se deslocar para Fortaleza. Com isso o Cuiabá se desloca 4 mil quilômetros para ir e voltar de Florianópolis e mais 6 mil quilômetros para ir e voltar de Fortaleza. Isso tudo em um espaço de sete dias.

O time nesses sete dias fez 3 jogos, precisando de treino, viagem e recuperação. Aí vem a pergunta, como o time irá jogar com intensidade e excelência nestes três jogos?

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E assim é com todos os times da Série A. Soma-se a isso jogos de Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana, onde dependendo do adversário, a viagem pode ter pelo menos 4 mil quilômetros somente pra ir e enfrentar uma altitude qualquer.

A logística do futebol brasileiro não pode ser comparada com nada do que acontece na Europa. Na Premier League, metade dos clubes são de Londres, ou seja, em muitos casos o Chelsea precisa atravessar uma rua para enfrentar um adversário, é óbvio que sua intensidade será maior do que qualquer clube brasileiro, e até o time rebaixado por lá tem uma intensidade melhor que os melhores times daqui.

Atualmente, metade dos técnicos da Série A são estrangeiros. Mentalidade diferente, metodologia diferente, perfil e até mesmo personalidade diferente do que se vê por aqui. E até por isso, o tempo com estes profissionais deve ser levado em conta, não só com eles, mas com os brasileiros também. Se a diretoria de um clube contrata um técnico, seja ele estrangeiro ou brasileiro, precisa acreditar no perfil e no planejamento escolhido. Mudança de treinador a cada seis meses não irá fazer o futebol melhorar e muito menos é garantia de títulos. O que até pode acontecer, mas por um acaso e pelo baixo nível apresentado por aqui.

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As últimas temporadas mostram um absurdo de jogos e de falta de preparação das equipes. 2019 foi o último ano em que o campeonato parou em datas FIFA e não tinha uma pandemia assolando o país. De 2020 para cá são jogos em cima de jogos, times desfalcados por seleções, por lesões e por Covid, e a temporada atual é ainda mais desumana porque tem uma Copa do Mundo no final do ano, e com datas FIFA até lá.

Como cobrar excelência de um time com esse panorama atual? Para isso, ou o clube se organize minimamente em seu staff por trás do treinador e tenha um elenco equilibrado para poder rodar um elenco nesse cenário atual, ou, como se faz sempre no bom e velho futebol brasileiro, a mudança constante de treinador para afagar o ego de seu torcedor sedento por vitórias com goleadas e atuações dignas de um Manchester City da vida.

Por estes e outros motivos que o nível do futebol brasileiro continuará abaixo do que se pratica na Europa, e para mudar este cenário a estrutura do futebol atual precisa ser modificado desde a base até o profissional. Caso contrário, continuaremos a ver jogos deficitários e jogadores de qualidade deixarem o país cada vez mais cedo.

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MARCELO NEVES

Uma Copa do Mundo de contradições

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A Copa do Mundo de Clubes entra na última rodada da fase de grupos, e assim como na Copa do Mundo de seleções, surpresas e favoritos mostram sua cara em vários jogos, assim como algumas zebras. E isso tem sido evidente até aqui. Exemplos como empate de um Al-Hilal contra o Real Madrid, vitória do Inter Miami diante do Porto e atuações de equipes periféricas que chamam a atenção.

Com as vitórias de Botafogo diante do PSG, a vitória do Flamengo diante do Chelsea e os empates de Fluminense e Palmeiras frente à Borussia Dortmund e Porto respectivamente, aqueles vira-latas da imprensa brasileira sempre puxam as famosas cartas do “europeu joga sem interesse”, “eles não ligam para o torneio”, “é uma pré-temporada de luxo”, e coisas assim.

Agora esse mesmo vira-latismo (termo muito utilizado por Nélson Rodrigues) começou a usar a desculpa do cansaço e do calor enfrentado pelos times europeus. Mas será mesmo que esses aspectos afetam apenas os times europeus? Em um balanço feito pelo site Sofascore em partidas realizadas nos últimos 12 meses, nenhum time europeu jogou mais de 60 jogos no período, vejam na imagem abaixo:

Ou seja, antes da Copa do Mundo iniciar, o Flamengo foi quem mais atuou no período com 77 jogos disputados, enquanto o time europeu com mais jogos disputados foi o Real Madrid com 62 jogos. Mas aí você pode dizer que os times brasileiros tiveram férias no período enquanto os europeus continuaram atuando.

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Então vamos fazer um balanço de fevereiro até o início da Copa do Mundo (entre 1º/02 até 31/05), lembrando que em janeiro as equipes brasileiras já estavam jogando os estaduais em pleno verão. Neste período entre fevereiro e maio quem mais jogou foram Fluminense e Palmeiras, 30 jogos cada um. A equipe europeia que mais atuou no período foi o PSG com 28 jogos.

Ainda em comparação, o Flamengo também fez 28 jogos enquanto o Chelsea entrou em campo 23 vezes. O Botafogo entrou em campo 26 vezes, o Real Madrid jogou 27 jogos, assim como a Inter de Milão. Já o Bayern entrou em campo 21 vezes e o Porto apenas 17 jogos.

É óbvio que são momentos distintos, enquanto as partidas dos europeus é na fase final da temporada, os times brasileiros estão na fase inicial. E ainda assim, o número de lesões musculares nos times brasileiros foi superior ao dos times europeus no mesmo período.

Quando a disputa é do Mundial de Clubes, realizado em dezembro, os europeus estão no meio da temporada, enquanto os brasileiros estão realizando mais de 70 partidas, e não vemos as desculpas de cansaço por aqui. O Botafogo no ano passado, venceu a Libertadores, três dias depois entrava em campo contra o Palmeiras pelo título brasileiro e no dia seguinte viajou para encarar o Pachuca do México dois dias depois e foi derrotado. Mas a nossa imprensa vira-lata preferiu diminuir o futebol brasileiro o relegando como uma força periférica e enfraquecida diante de continentes como asiático, africano e da América do Norte.

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Mas diante dos desempenhos das equipes europeias na Copa do Mundo de Clubes, onde os brasileiros estão fazendo frente e colocando dificuldades nos times de lá, os especialistas brasileiros preferem alegar cansaço, forte calor e desinteresse por parte dos jogadores europeus.

Vamos lembrar que a Copa do Mundo de seleções no ano que vem será disputada no mesmo período de agora e no mesmo país, ou seja, forte calor e final de temporada europeia, será que em caso de fracasso europeu, nossos vira-latas irão alegar as mesmas desculpas atuais?

A verdade é que o futebol brasileiro, especificamente de clubes, tem evoluído muito dentro de campo. Temos visto variações táticas, intensidade alta, aplicação tática dos jogadores, e em várias partidas do campeonato brasileiro o que se vê quando elogiam as partidas é: “parece um jogo da Premier League”.

Vejo nessa Copa do Mundo alguns times da elite mundial, e sim, eles são europeus. Bayer, Real Madrid, PSG, Manchester City, Juventus e Inter continuam sendo favoritos ao título, mas não irei me surpreender caso um time brasileiro vença a competição. A distância não é tão grande assim como querem fazer você pensar.

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