AGRONEGÓCIO
Caso Carrefour exige que sejamos mais Brasil
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Caso Carrefour exige que sejamos mais Brasil
Por Nilson Leitão
Atitude do grupo reflete como o protecionismo comercial e a desinformação são usados para dificultar o avanço de acordos comerciais
O setor agropecuário brasileiro reagiu com indignação e estranheza às declarações de Alexandre Bompard, CEO do Carrefour na França, que contestou a qualidade e a procedência da carne bovina proveniente do Mercosul. As afirmações de Bompard, que parecem oscilar entre desconhecimento e uma atitude deliberadamente desordenada, surgem poucos dias depois do adiamento da implementação da lei europeia antidesmatamento.
Esse episódio se insere em um contexto mais amplo de atitudes protecionistas, que visam a desqualificar injustamente a produção agropecuária no Brasil.
O mercado brasileiro é o 2º mais importante para a rede no mundo, atrás só da França. De janeiro a setembro deste ano, o grupo faturou mais de R$ 95 bilhões. Representamos 50% do faturamento mundial e, mesmo assim, foram injustos e aproveitadores na medida que se utilizam de nossos consumidores e prejudicam a imagem do Brasil no mundo.
O Brasil é um dos maiores responsáveis pela produção mundial de alimentos, sendo um protagonista essencial na garantia da segurança alimentar global. O país, além disso, é exemplo de como é possível aliar alta produtividade à preservação ambiental. Atualmente, 66% do território brasileiro é coberto por vegetação nativa, incluindo áreas protegidas, como terras indígenas, unidades de conservação e áreas de preservação privada.
As lavouras e florestas plantadas ocupam só 9% do território, enquanto as pastagens plantadas correspondem a 13%, e as pastagens nativas, a 8%. A agricultura e a pecuária somam 30% da área total do Brasil, enquanto a agricultura utiliza não mais que 7,6% do território.
O Brasil, assim, é um dos poucos países do mundo que pode aumentar sua produção agrícola sem expandir a área utilizada para isso. Além disso, o bioma amazônico, frequentemente alvo de críticas, ainda mantém 84% de sua área intacta, demonstrando a seriedade do compromisso do Brasil com a preservação.
Porém, o que se observa é uma tentativa da UE (União Europeia) de impor ao Brasil uma atitude de “façam o que eu digo, mas não o que eu faço”. A alegação de que o Brasil não cumpre as normas ambientais exigidas pela UE ignora as ações concretas do país em termos de sustentabilidade e inovação tecnológica na agricultura.
O Brasil tem uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo, que garante não só o controle ambiental, mas também o desenvolvimento sustentável. As acusações que se baseiam em narrativas infundadas, frequentemente impulsionadas por disputas comerciais, não reconhecem os avanços da agropecuária brasileira.
As declarações de Bompard, portanto, não são um reflexo das preocupações ambientais, mas uma reação protecionista ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Esse pacto tem o potencial de causar um fluxo comercial de até R$ 274 milhões em produtos manufaturados agrícolas e criar um mercado comum de 780 milhões de pessoas.
A decisão do Carrefour de questionar a qualidade dos produtos do Mercosul, em especial da carne bovina brasileira, é, portanto, uma tentativa de protesto contra esse acordo, mascarada de preocupação com questões ambientais. O que está em jogo é, na realidade, a proteção dos produtos franceses, que recebem altos subsídios e enfrentam a concorrência das ofertas mais competitivas de outros países, como o Brasil.
A 1ª Cúpula AgroGlobal, realizada em Brasília em outubro de 2024, deixou claro o poder de transformação que o setor agropecuário da América do Sul pode exercer sobre a segurança alimentar no mundo. A cúpula, que reuniu representantes de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, discutiu a importância da união dos países do Mercosul e outros integrantes da América do Sul para promover a competitividade do bloco no comércio internacional.
É urgente a construção de um bloco agropecuário mais integrado, capaz de enfrentar não só os desafios globais relacionados à produção de alimentos, mas também questões ambientais e o protecionismo comercial.
A Carta de Brasília (PDF – 1 MB), assinada durante o evento, reafirma o compromisso da região com práticas sustentáveis e a produção responsável. O documento também destacou o papel essencial do Brasil e dos países sul-americanos na produção de alimentos para o mundo, reconhecendo que, apesar das críticas internacionais e das tentativas de desqualificação do agro brasileiro, a região mantém padrões ambientais rigorosos e oferece produtos com certificação de qualidade reconhecida globalmente.
A cúpula reforçou a necessidade de um fortalecimento da cooperação regional e de uma governança agropecuária comum, capaz de coordenar as políticas agrícolas e enfrentar as barreiras comerciais impostas por outras regiões, como a União Europeia.
O Brasil deve continuar defendendo seu modelo agrícola sustentável, que é um dos mais tecnológicos e avançados do mundo. Além disso, deve buscar respostas mais contundentes a essas atitudes discriminatórias e protecionistas.
A 1ª Cúpula AgroGlobal e a Carta de Brasília oferecem uma base sólida para a construção de um bloco forte, que defenda os interesses da América do Sul no cenário global. A região tem tudo a ganhar com a colaboração mútua e uma agenda comum que promova a inovação, a sustentabilidade e, acima de tudo, a competitividade no comércio global. Para isso, é fundamental que os países do bloco continuem unindo forças para superar as barreiras impostas por outras potências comerciais.
A atitude do Carrefour reflete mais um exemplo de como o protecionismo comercial e a desinformação são usados para dificultar o avanço de acordos comerciais e proteger interesses econômicos. O Brasil, por sua vez, tem responsabilidade com a segurança alimentar mundial e com a preservação ambiental.
Não menos importante, pela 1ª vez, percebo a imprensa brasileira vestida de Brasil, enxergando que o nosso país está sendo boicotado e que os franceses, por exemplo, estão unidos por eles. Aqui, não podemos vocalizar discursos de presidentes e empresários protecionistas sob o risco de impulsionar mercados competidores e prejudicar a imagem de um país que demorou mais de 30 anos para chegar até este modelo de tecnologia implantado pelo nosso saudoso ex-ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli (1974-1979).
Fica o exemplo francês: sejamos mais Brasil!
_ Por Nilson Leitão, atual presidente do Instituto Pensar Agropecuária (IPA). Foi deputado federal pelo PSDB de Mato Grosso_
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Alta de invasões impulsiona campanha “Invasão Zero” e pressiona por lei mais dura
A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) intensificou a reação às invasões de propriedades rurais com a campanha “Invasão Zero”, que reúne um conjunto de propostas legislativas e medidas de pressão institucional para endurecer o combate às ocupações no campo.
A iniciativa ganha força em meio ao aumento recente dos casos. Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta 33 invasões registradas entre janeiro e meados de abril deste ano, sendo 14 apenas neste mês. Do total, 32 episódios foram atribuídos ou vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Para a bancada ruralista, o avanço das ocupações amplia a insegurança jurídica e afeta decisões de investimento no setor. A avaliação é de que o cenário pode comprometer a produção, sobretudo em regiões de fronteira agrícola, onde a expansão depende de maior previsibilidade institucional.
Como resposta, a FPA articula um pacote de projetos no Congresso. Entre eles está o Projeto de Lei 4.432/2023, que cria o Cadastro Nacional de Invasões de Propriedades (CNIP), com integração ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). A proposta busca centralizar dados, facilitar a identificação de envolvidos e dar suporte às ações de segurança.
Outro eixo da ofensiva é o endurecimento das penas. O Projeto de Lei 1.198/2023 propõe alterar o Código Penal para elevar a punição por esbulho possessório, hoje limitada a detenção de um a seis meses, para reclusão de quatro a oito anos, além de multa. Já o Projeto de Lei 6.612/2025 cria uma tipificação específica para invasões de propriedades rurais, com penas que podem chegar a dez anos, agravadas em casos de áreas produtivas ou ações coletivas.
No mesmo pacote, propostas buscam restringir o acesso de invasores a políticas públicas. Um dos textos em tramitação prevê a exclusão de ocupantes irregulares de programas de reforma agrária e o bloqueio temporário de crédito subsidiado, benefícios fiscais e contratos com o poder público.
A ofensiva legislativa ocorre em um contexto mais amplo de debate sobre a política fundiária. Dados do mostram que o Brasil tem cerca de 1,1 milhão de famílias assentadas, mas ainda enfrenta desafios estruturais na geração de renda e na integração produtiva dessas áreas. Para a FPA, a solução passa por tratar a reforma agrária como política técnica, com foco em infraestrutura, assistência e viabilidade econômica, e não por meio de ocupações.
A campanha “Invasão Zero” deve orientar a atuação da bancada ao longo de 2026, com prioridade para projetos que ampliem a segurança jurídica no campo e estabeleçam regras mais rígidas para ocupações ilegais. O tema tende a ganhar espaço na agenda do Congresso, especialmente diante da pressão de produtores e entidades do setor.
Fonte: Pensar Agro
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