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Marcelo Porto Carrero

Ideias, ideais e ideologias

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Marcelo Porto Carrero

Em uma discussão, dependendo do âmbito e não do ambiente, os oponentes, ao atingirem alto grau de estresse, costumam confundir ideias com ideais, daí acabarem por externalizar suas ideologias.

No campo das ideias, temos que estas não passam de opiniões pensadas com a intenção de fazer algo, pois é a partir delas que as coisas passam a ter formatação ou, em outras palavras, existir de fato.

Já ideal é um princípio, uma aspiração que se toma por modelo. Tem muito a ver com o imaginário coletivo, daí ser entendido como aspiração, ambição ou mesmo fantasia.

Algo perfeito no que se refere à estética tanto física quanto sociológica, o que o torna um entendimento pessoal, particular mesmo. Afinal o que é belo para alguém, pode ser feio para outrem.

Como se percebe, tanto um conceito quanto o outro são insumos para a construção de convicções filosóficas, sociais e políticas, que contribuem individual e conjuntamente para o aparecimento de uma porção de propostas alimentadas pelo ativismo, seja ele conservador, progressista ou outro qualquer.

O conservadorismo acredita nas tradições, porque estas oferecerem à sociedade, melhor dizendo, ao indivíduo, a possibilidade de exercer opinião, agir em liberdade, respeitar valores religiosos, morais, éticos e familiares bem como defender sua nacionalidade, considerar e respeita o passado como mecanismo construtor do presente e indutor do futuro.

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Do outro lado, o progressismo busca o que chama por igualdade, no entanto, na prática relativiza este conceito ao se utilizar de argumentos desagregadores.

Agindo assim, ao invés de reunir, aparta ainda mais a humanidade de seus princípios originais, ou seja, propõe a consideração de variações opcionais irrestritas sobre quase tudo.

Entretanto, não age dessa forma em relação a direitos como o livre-arbítrio, desconsiderando assim a gênese igualitária universal, que tem como um de seus pilares fundamentais um pressuposto criador único, seja ele um princípio religioso ou científico.

Assim, nessas ocasiões e sorrateiramente, a discussão passa do campo das ideias para o dos ideais e destes para o das ideologias, em concepções cada vez mais díspares em conteúdos e objetivos.

Tanto, que hoje em dia há cada vez mais espaço para a inclusão de novos tipos de ideologias, a exemplo da de gênero, que utilizando do teórico argumento de ser um conjunto de pensamentos, doutrinas ou visões do mundo de um indivíduo ou de determinado grupo, orientado por suas ações sociais e políticas vêm sendo estabelecido, muito embora seja uma expressão não muito adequada para tratar um conjunto de princípios ainda em construção.

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Interessante observar, que dentre os vários tipos de ideologias político-sociais existentes na primeira metade do século passado – o liberalismo, o conservadorismo, o comunismo, o socialismo e o fascismo – todas procuravam explicar o comportamento social através de distintas propostas, que levaram o mundo a viver em um verdadeiro caleidoscópio filosófico.

Nesse contexto, o avanço progressista fez surgir outras modalidades, dentre elas a ideologia woke, termo de origem americana, que se refere a uma percepção das questões relativas à justiça social e racial inspirada no comunismo, mas colocada em prática pelos “democratas norte-americanos” e o que vou chamar de neoliberalismo brasileiro, uma teoria sócio-econômica própria, tupiniquim mesmo, que tentou disfarçar seus vieses comunistas e socialistas através da “adoção” de princípios liberais, práticas aplicadas nos momentos que existiram logo após o afastamento dos militares do poder e que antecederam o atual “status quo” dessa nossa jabuticaba ideológica.

Uma ideologia única, lúdica, que possui em seu bojo argumentos incompatíveis, posto que composta por conceitos excludentes sobre política, economia, sociologia e cultura, os quais, em conjunto, tornam nossa sobrevivência como povo, país e nação algo incompreensível, . . . pelo menos para mim.

 

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Marcelo Porto Carrero

1964 — A Ditadura do Anacronismo

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1964 — A Ditadura do Anacronismo

Nascer em novembro de 1953 significa carregar na própria biografia as exatas curvas da história do Brasil contemporâneo. Eu não li o Brasil do século XX nos manuais escolares; eu estava lá, crescendo à medida que o país mudava de rumo. Entre 1964 e 1985 vivi entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. Quando as estruturas institucionais estremeceram em março de 1964, eu era um menino de dez anos, idade suficiente para guardar na memória o tom grave das transmissões de rádio, as expressões tensas dos adultos e a atmosfera de um país que parecia caminhar à beira de um abismo.

Hoje, decorridas mais de seis décadas, assisto a um esforço persistente de revisão histórica que peca pelo vício do anacronismo. Julga-se o passado com as lentes confortáveis do presente, ignorando os fantasmas reais que assombravam as pessoas daquele tempo. Para quem viveu aqueles dias, a intervenção militar que culminou no movimento de 1964 não surgiu do vácuo, nem foi o fruto de um capricho autoritário isolado. Foi, fundamentalmente, uma reação preventiva a um colapso que se desenhava de dentro para fora das próprias instituições.

Naqueles dias de 1964, o estopim da crise acendeu-se nos quartéis com a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Para a cúpula das Forças Armadas e para as famílias de classe média que marchavam pelas ruas, a anistia concedida pelo presidente João Goulart aos amotinados não foi um ato de pacificação, mas a validação da quebra de hierarquia e da indisciplina. A mensagem captada pela sociedade era clara: o governo flertava abertamente com a subversão.

O fantasma que rondava o país tinha nome e precedentes. Na memória dos oficiais mais velhos e na consciência nacional, a Intentona Comunista de 1935 com seus levantes simultâneos no Rio, Natal e Recife contra Getúlio Vargas ainda era uma ferida aberta, um alerta de que a Internacional Comunista já havia tentado a via armada uma vez. Em 1964, a sensação era de que a “segunda rodada” estava em curso, desta vez embalada pelo prestígio recente e agressivo da Revolução Cubana de 1959.

À medida que os anos avançaram e eu entrei na adolescência, vivenciando os chamados “Anos de Chumbo” entre os meus 15 e 21 anos, testemunhei a consolidação de uma narrativa que hoje muitos tentam distorcer. A esquerda que optou pela clandestinidade adotou o modelo do “foquismo” de Che Guevara e as táticas urbanas de Carlos Marighella. No entanto, o cidadão comum da minha geração via as ações da guerrilha (os assaltos a bancos, as bombas e os sequestros de embaixadores) não como um clamor libertador, mas como atos de terrorismo que ameaçavam a paz social.

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O distanciamento histórico nos permite hoje olhar para os números com a sobriedade que faltava ao calor do momento. O confronto direto cobrou seu preço em ambos os lados. Se os relatórios oficiais registram a morte e o desaparecimento de pouco mais de 400 opositores e guerrilheiros sob a repressão estatal, a maior parte isolada na selva do Araguaia, não se pode apagar da história as 119 vidas ceifadas pelas ações da esquerda armada. Foram soldados, policiais e civis inocentes que cruzaram o caminho de uma utopia importada que nunca encontrou eco real no povo.

As guerrilhas brasileiras fracassaram militar e politicamente porque operavam em uma bolha ideológica, alimentada por Havana, completamente divorciada do trabalhador brasileiro. Enquanto os grupos clandestinos tentavam inflamar uma revolução, a esmagadora maioria da minha geração escolheu o caminho da ordem e do trabalho, impulsionada pelo otimismo econômico dos anos 1970.

Quando a redemocratização finalmente bateu à porta, em meados dos anos 1980, eu já era um homem maduro, com mais de trinta anos, casado e com filhos. Vi o ciclo se fechar de forma pacífica, devolvendo o poder aos civis.

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A história, com todas as suas complexidades e contradições, não cabe em maniqueísmos fáceis de mocinhos e vilões. Compreender 1964 exige o respeito à cronologia dos fatos e a coragem de reconhecer que, naquele conturbado março, o Brasil escolheu conter uma intentona iminente em nome da preservação de sua própria soberania.

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