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Ex-controlador interno é condenado por registrar terreno em nome da mãe
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A Justiça condenou por improbidade administrativa Jefferson Almeida Freire, que ocupava o cargo de controlador interno do Município de Itiquira (361 km de Cuiabá) e atuava no procedimento de regularização fundiária do Bairro Poxoréu, por atribuir à própria mãe a posse de um terreno de 3.165,80 m² ocupado havia décadas por outra família. A ação civil pública foi ajuizada em 2020 pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso, por meio da Promotoria de Justiça de Itiquira.Na sentença, o juiz Romeu da Cunha Gomes, da Vara Única de Itiquira, reconheceu a prática de enriquecimento ilícito, previsto no art. 9º da Lei de Improbidade Administrativa. Jefferson foi condenado à perda da função pública, restrita ao vínculo de mesma natureza que detinha à época dos fatos, à suspensão dos direitos políticos por oito anos, ao pagamento de multa civil de R$ 15 mil e à proibição de contratar com o Poder Público ou de receber benefícios e incentivos fiscais ou creditícios pelo mesmo prazo.O título e a cláusula – A legitimação de posse foi concedida gratuitamente a Maria Bárbara de Almeida Freire, mãe do então controlador interno, e registrada em janeiro de 2013. O título tinha destinação expressa — direito de moradia — e trazia uma condição para os lotes ainda não edificados: construir em até quatro anos, sob pena de o imóvel reverter ao patrimônio público.Não houvia, porém, construção nem moradia da mãe do controlador no terreno. Ouvida em audiência, a beneficiária admitiu que não morava no terreno no período da legitimação e declarou que a área lhe fora entregue pelo pai para que a vendesse – circunstância que o juiz considerou incompatível com a finalidade de moradia exigida pela lei. Ainda assim, em 18 de maio de 2018 a legitimação foi convertida em propriedade plena, quando então a família do controlador quis exercer a posse no local. Doze dias depois, em 30 de maio, o imóvel foi vendido por R$ 15 mil, abaixo do valor de mercado, pelo controlador ao próprio possuidor: quem ocupava a área havia décadas teve de comprar a terra para encerrar o conflito.A atuação no procedimento – Jefferson sustentou que apenas auxiliava o procedimento e que os títulos eram assinados pelo então prefeito, mas afirmou que lhe cabia publicar no diário oficial o termo de validação do conjunto dos títulos. Disse também que, à época, ninguém mais estava na posse do terreno – versão contrariada, segundo a sentença, pelo conjunto uniforme das testemunhas ouvidas sob contraditório, que confirmaram a posse da outra família e a inexistência de cerca ou de construção dos Freire no local.Prescrição – A defesa sustentava que a pretensão já estava prescrita: os fatos se consumaram em janeiro de 2013 e o prazo de cinco anos, contado do fim do cargo em comissão, teria se esgotado antes do ajuizamento da ação, em julho de 2020.O Ministério Público sustentou tese oposta desde a petição inicial, com base na teoria da actio nata: o prazo prescricional não corre da data do ato, mas do momento em que o titular do direito tem condições reais de exercê-lo, isto é, quando toma conhecimento da lesão. A lógica é impedir que o ocultamento do ilícito trabalhe em favor de quem o praticou. Em fraudes embutidas em procedimentos administrativos, o vício costuma vir à tona anos depois, já com aparência de ato regular e amparado em papéis formalmente perfeitos.O argumento do MPMT foi acolhido pelo juízo, com apoio também no Tema 1.199 do Supremo Tribunal Federal. O marco fixado foi 14 de março de 2019, data em que o Ministério Público tomou conhecimento inequívoco dos fatos, por manifestação anônima recebida pela Ouvidoria. Contado desse dia, o prazo estava em curso quando a ação foi proposta. A questão já havia sido enfrentada na decisão de saneamento e foi novamente examinada na sentença, por se tratar de matéria de ordem pública.Espólio e herdeiros – Maria Bárbara faleceu em junho de 2025, antes do julgamento. Em relação a ela, o processo foi extinto sem resolução de mérito quanto às sanções personalíssimas. O juiz condenou o espólio e os herdeiros habilitados – Marco Antonio Freire, Jefferson Almeida Freire e Alessandra de Almeida Freire – à perda dos valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio da falecida, no montante de R$ 15 mil. A responsabilidade é limitada, nos termos do art. 8º da Lei nº 8.429/1992, ao valor da herança ou do patrimônio transferido a cada um.Para o promotor de Justiça Claudio Angelo Correa Gonzaga, o desfecho importa além do caso de Jefferson: “Quem decide burlar uma norma como essa, faz uma conta: de um lado, o ganho; de outro, a probabilidade de ser pego e o tamanho da consequência. Quando o desvio sai barato e a punição é improvável, a conta fecha, o comportamento se repete e passa até parecer ‘normal’. Punir maus exemplos serve para alterar essa conta e, com o tempo, deslocar a percepção coletiva sobre o que é tolerável. As normas sociais mudam quando as pessoas veem que a regra vale, inclusive para quem está dentro da máquina.”
Fonte: Ministério Público MT – MT
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IPTU Sorriso Mais Bela e Florida: um desconto que poderia virar sombra
Em Sorriso, uma calçada sem árvore às duas da tarde não é apenas uma questão de paisagem. É concreto exposto, calor acumulado e uma caminhada sob o sol. Uma árvore adulta muda essa experiência: cria sombra, reduz a incidência direta da radiação solar, abriga pássaros e, quando floresce, altera a aparência da rua.Por que não usar o IPTU para ajudar a multiplicar essas árvores?A proposta poderia receber um nome simples: IPTU Sorriso Mais Bela e Florida. O proprietário que plantar e conservar, no passeio público em frente ao imóvel, uma árvore de espécie aprovada pelo Município receberia desconto entre 5% e 10% no IPTU. Onde a cobertura arbórea já fosse satisfatória, 5%. Nas áreas intermediárias, 7,5%. Nos bairros mais quentes e menos arborizados, 10%.Essa diferença seria uma política urbana orientada por dados. Imagens de satélite, geoprocessamento, temperatura de superfície e inventário de árvores permitem identificar os trechos onde há menos copa e maior exposição ao sol. O Plano Nacional de Arborização Urbana, instituído em 2026, segue essa lógica ao priorizar locais de baixa cobertura arbórea e maior vulnerabilidade social e climática. Entre suas metas está elevar para 65% a parcela de moradores com pelo menos três árvores no entorno do domicílio até 2045.A ideia não é inédita. São Carlos, em São Paulo, concede 1% de desconto aos imóveis com uma ou mais árvores no passeio público imediatamente à sua frente. Araras prevê abatimento de até 2% para imóveis com árvores adequadas à arborização viária. Em Garça, o benefício pode chegar a 5% para quem mantém vegetação arbórea no passeio diante da residência ou do estabelecimento. Os modelos variam, mas partem da mesma compreensão: o imposto também pode induzir uma conduta que melhora o espaço coletivo.Sorriso já percorreu parte desse caminho. A Lei municipal nº 3.196/2021 criou o IPTU Verde para imóveis residenciais que utilizem energia solar fotovoltaica. O desconto é de 20%, limitado a R$ 1.000 por exercício e por até seis anos. Não seria necessário inventar uma lógica tributária desconhecida pela cidade. Bastaria ampliá-la para algo que está literalmente diante de nossas casas.Os percentuais de 5% a 10% precisariam, naturalmente, ser submetidos à conta fiscal e calibrados conforme a realidade local. Mas o incentivo deve ser perceptível. Uma redução de poucos reais dificilmente convencerá alguém a comprar uma muda de bom porte, preparar o solo, instalar tutor, adubar e irrigar durante a longa estação seca. Para imóveis cujo IPTU seja baixo, o Horto Municipal poderia complementar o estímulo fornecendo muda e tutor, para que os moradores de menor renda não fiquem fora do programa.Há razões de saúde pública para a proposta. A exposição excessiva à radiação ultravioleta é importante fator de risco para o câncer de pele. Uma árvore não substitui protetor solar, chapéu, roupa adequada ou diagnóstico precoce. Mas sua copa retira o corpo do sol direto. Em uma cidade quente, uma sequência de árvores reduz a exposição de quem caminha, pedala, espera transporte ou atravessa o bairro.A arborização também interfere no conforto térmico. As copas interceptam parte da radiação que atingiria calçadas, carros, fachadas e asfalto e, pela evapotranspiração, ajudam a modificar o microclima próximo. Há ainda um efeito que não cabe no termômetro. Uma rua de resedás, ipês, manacás, patas-de-vaca ou escovas-de-garrafa em floração não é visualmente a mesma rua composta apenas de postes, muros e concreto. A beleza altera a relação das pessoas com o lugar onde vivem.O programa, porém, só faria sentido se premiasse árvore viva, não uma fotografia tirada no dia do plantio. O interessado faria um pré-cadastro do imóvel, indicaria o ponto do plantio e escolheria uma espécie autorizada. Depois, registraria a muda com fotografias padronizadas mostrando árvore, fachada e canteiro. Passados seis meses, nova comprovação demonstraria que ela vingou. Somente então surgiria o direito ao desconto no exercício seguinte.Nos anos posteriores, uma fotografia anual vinculada à inscrição imobiliária, somada à fiscalização presencial por amostragem, poderia confirmar a sobrevivência. Se a árvore morresse por causas naturais, seria possível substituí-la em determinado prazo. Fraude ou retirada injustificada cancelariam o benefício. O Município deveria medir não apenas quantas mudas foram plantadas, mas quantas árvores continuam vivas cinco anos depois.Também é preciso impedir uma distorção. A legislação municipal já estabelece obrigações de arborização em determinadas situações, e os projetos de loteamento preveem densidade mínima de uma árvore por lote. O desconto não deve remunerar automaticamente aquilo que já constitui obrigação urbanística. Construções novas, loteamentos, compensações ambientais e outras hipóteses de plantio obrigatório exigiriam regra própria. E ninguém deveria receber incentivo para derrubar uma árvore adulta e substituí-la por uma muda nova.A lista de espécies não deveria ficar engessada na lei. Sorriso já possui regulamentação para arborização dos passeios públicos. A relação poderia ser atualizada segundo largura da calçada, rede elétrica, sistema radicular, porte adulto, dimensão da copa, resistência à seca, biodiversidade e floração. Entre várias árvores adequadas ao mesmo espaço, há uma escolha legítima: por que não preferir as que, além de sombra, deem flores abundantes e cor à cidade?Há ainda uma questão prática: quem cuida da árvore nem sempre é o proprietário. Em muitas casas alugadas, é o inquilino quem abre a torneira, carrega a mangueira e percebe primeiro quando a muda sofre. O IPTU, porém, beneficia diretamente o proprietário.A lei não precisa interferir no contrato de locação. A campanha municipal pode estimular proprietários e locatários a pactuarem o repasse do ganho econômico quando o cuidado ficar a cargo do inquilino, por exemplo, mediante abatimento equivalente no aluguel. O cadastro poderia identificar o morador responsável pela árvore. A sombra diante de uma casa alugada é tão pública quanto a de qualquer outra árvore da rua.A proposta movimentaria também uma pequena economia verde local. Se centenas ou milhares de imóveis tiverem incentivo permanente para plantar e conservar árvores, surgirá demanda previsível por mudas, substratos, tutores, fertilizantes, irrigação, plantio, poda de formação e jardinagem. Viveiros de Sorriso poderão planejar a produção e ampliar a variedade; jardineiros e pequenos prestadores terão um mercado menos dependente de campanhas isoladas. Parte da renúncia tributária circulará novamente na própria cidade, em compras e trabalho.Esse resultado depende de continuidade. Uma distribuição de mudas durante uma semana rende fotografias. Uma política mantida por dez ou vinte anos produz copas.Por isso, o IPTU Sorriso Mais Bela e Florida deveria vir acompanhado de um plano municipal permanente de comunicação sobre arborização. Não uma campanha de lançamento, mas uma estratégia renovada todos os anos. No carnê digital do IPTU, nas escolas, nas redes sociais, nos bairros e nos viveiros, o morador deveria encontrar instruções simples: quais espécies plantar, como obter a muda, como preparar o canteiro, quanto irrigar, quais cuidados tomar perto da rede elétrica e como solicitar o desconto.O Município poderia publicar anualmente um mapa da cobertura arbórea e mostrar onde a cidade ganhou sombra. Em vez de anunciar apenas quantas mudas foram plantadas, poderia informar quantas sobreviveram e quais regiões ainda precisam de prioridade. A comunicação, nesse caso, seria parte da política pública: manter uma árvore jovem durante a seca exige informação repetida ao longo dos anos.A proposta é juridicamente possível, mas precisa nascer com cuidados.O Supremo Tribunal Federal fixou, no Tema 682 da repercussão geral, que não existe, na Constituição Federal, reserva de iniciativa para leis de natureza tributária, inclusive as que concedem renúncia fiscal. Em princípio, portanto, um vereador pode apresentar projeto concedendo desconto de IPTU. Isso não autoriza, porém, uma lei parlamentar a reorganizar secretarias, criar cargos ou determinar minuciosamente o funcionamento da administração. A Lei Orgânica municipal precisa ser observada, sobretudo quanto às matérias reservadas à organização e ao funcionamento do Executivo.O maior cuidado, porém, é fiscal. Desconto de IPTU é renúncia de receita. O art. 150, § 6º, da Constituição exige lei específica para a concessão do benefício. O art. 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal impõe estimativa do impacto orçamentário-financeiro no exercício em que a renúncia começar e nos dois seguintes, compatibilidade com a LDO e atendimento às condições legais relativas à previsão da renúncia ou à sua compensação. A legislação financeira também exige que essa realidade apareça corretamente no planejamento das receitas municipais.Em abril de 2026, no julgamento da ADI 7.633, o STF reforçou que o art. 14 da LRF e o art. 113 do ADCT devem ser observados durante a própria tramitação de projetos que criem ou ampliem benefícios tributários. O estudo de impacto não é uma conta para depois da aprovação. Faz parte do projeto.A iniciativa pode nascer na Câmara, mas não deve nascer sem números. Antes de fixar definitivamente 5%, 7,5% ou 10%, será preciso estimar o número de imóveis beneficiados, a renúncia de receita em diferentes cenários, a convivência com o IPTU Verde já existente e a capacidade do orçamento municipal de absorver o incentivo. O melhor caminho seria construí-lo em diálogo entre Câmara, Prefeitura e as áreas de Fazenda, Meio Ambiente, Planejamento e Urbanismo.Há uma imagem simples por trás disso. Parte do dinheiro que iria para o caixa municipal permaneceria na própria rua: primeiro como uma muda que alguém rega durante a seca; alguns anos depois, como uma copa que protege quem passa; em determinada época, coberta de flores.Uma árvore não melhora apenas a casa diante da qual foi plantada. Sua sombra alcança o carteiro, a criança que volta da escola, quem caminha para o trabalho e até quem nunca saberá quem pagou por aquela muda.Sorriso cresceu depressa. Pode agora escolher também como quer amadurecer. Uma cidade mais bela, florida e fresca não surgirá de uma única grande obra. Surgirá árvore por árvore, calçada por calçada, ano após ano.Parte dessa cidade futura pode começar no próximo carnê de IPTU — e terminar, alguns anos depois, em sombra e flores sobre a calçada.*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
Foto: Prefeitura Municipal.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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