AGRONEGÓCIO
Tecnologia leva transparência a mercado bilionário de insumos
AGRONEGÓCIO
Em um mercado que movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano, produtores rurais costumam negociar com base em poucas cotações, informações fragmentadas e relações comerciais construídas ao longo do tempo. Agora, o avanço da digitalização no campo começa a alterar essa dinâmica ao transformar milhões de notas fiscais em inteligência de mercado.
O movimento ganha força em um momento de margens mais apertadas na agricultura. Após anos de rentabilidade impulsionada pelos preços elevados das commodities, produtores passaram a conviver com custos elevados, juros altos e maior volatilidade nos mercados internacionais. Nesse cenário, pequenas diferenças no valor pago por insumos podem representar milhões de reais no resultado final de uma safra.
Levantamentos do setor indicam que fertilizantes, defensivos e sementes respondem por algo entre 50% e 70% dos custos de produção das principais culturas brasileiras. Em uma fazenda de grãos com cinco mil hectares e custo operacional de R$ 5 mil por hectare, o desembolso anual pode chegar a R$ 25 milhões. Uma diferença de apenas 5% no preço de compra significa impacto de R$ 1,25 milhão no caixa do produtor.
É nesse ambiente que cresce o mercado de inteligência de dados voltado ao agronegócio. Empresas que começaram oferecendo softwares de gestão agrícola passaram a utilizar o enorme volume de informações geradas pelas próprias fazendas para desenvolver ferramentas capazes de orientar decisões de compra, venda e planejamento financeiro.
Uma das iniciativas mais recentes foi anunciada pela Aegro, empresa brasileira de tecnologia agrícola fundada no Rio Grande do Sul e especializada em sistemas de gestão para propriedades rurais. A companhia lançou uma plataforma de comparação de preços baseada em 1,7 milhão de notas fiscais eletrônicas registradas em todo o país. O sistema permite que produtores comparem os valores pagos por insumos com os preços efetivamente praticados em sua região.
A proposta representa uma mudança importante na lógica tradicional das negociações. Historicamente, fabricantes, distribuidores e revendas acumulavam um volume de informações muito superior ao disponível para o produtor. Enquanto fornecedores acompanhavam diariamente milhares de transações, agricultores costumavam ter acesso apenas a algumas cotações e referências obtidas junto a cooperativas, consultores ou vizinhos.
Com a digitalização das operações rurais, essa assimetria começa a diminuir. Dados que antes ficavam dispersos em documentos fiscais, planilhas e sistemas internos passam a ser consolidados e transformados em indicadores de mercado. Na prática, produtores conseguem identificar se determinado fertilizante, defensivo ou semente está sendo negociado acima ou abaixo da média regional, além de acompanhar padrões históricos de preços ao longo do ano.
A utilização de informações extraídas de notas fiscais também representa uma mudança na qualidade dos dados disponíveis. Diferentemente de levantamentos baseados em pesquisas ou preços de referência, os registros refletem transações efetivamente realizadas. Para especialistas em gestão rural, essa característica tende a aumentar a confiabilidade das análises e reduzir distorções comuns em mercados pulverizados como o de insumos agrícolas.
O avanço dessas plataformas ocorre em paralelo ao crescimento da agricultura digital no Brasil. Nos últimos anos, produtores passaram a adotar ferramentas de agricultura de precisão, monitoramento remoto, sensores, telemetria e softwares de gestão. O resultado é uma quantidade crescente de informações capazes de gerar ganhos de eficiência dentro e fora da porteira.
Além de orientar compras, a nova geração de plataformas busca apoiar decisões relacionadas ao fluxo de caixa, momento ideal de aquisição de insumos e avaliação de condições de financiamento. Em muitos casos, operações parceladas aparentemente sem juros podem embutir custos financeiros relevantes, especialmente em um ambiente de taxas elevadas.
O surgimento desse mercado também abre novas discussões sobre governança e uso de dados no agronegócio. Especialistas apontam que a valorização das informações geradas pelas fazendas exigirá regras cada vez mais claras sobre privacidade, anonimização e compartilhamento de dados comerciais sensíveis.
Enquanto esse debate avança, uma transformação já está em curso. Se nas últimas décadas a competitividade do agro brasileiro foi construída principalmente sobre genética, mecanização e ganho de produtividade, os próximos anos poderão ser marcados por uma nova fronteira: a capacidade de transformar dados em vantagem econômica. Em um mercado bilionário, conhecer o preço real praticado pelos concorrentes pode valer tanto quanto uma boa safra.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
-
ESPORTES4 dias atrásGrêmio busca empate no fim contra o Fluminense e evita derrota em casa
-
OAB MT6 dias atrásGisela Cardoso destaca que a advocacia é aliada na busca por uma prestação jurisdicional mais célere e efetiva
-
OAB MT7 dias atrásInventário, regularização fundiária e diversos temas da atuação extrajudicial serão debatidos em II Simpósio da OAB-MT
-
Sinop6 dias atrásPrefeitura de Sinop convida setor do turismo de pesca para participar de pesquisa de campo a partir desta segunda-feira (27)
-
POLITÍCA NACIONAL7 dias atrásRetrospectiva: na área de transportes, Câmara aprovou anistia de multas aplicadas a caminhoneiros
-
CUIABÁ7 dias atrásLimpeza urbana mobiliza cerca de 250 trabalhadores em diferentes regiões de Cuiabá
-
Sinop6 dias atrásPrefeitura de Sinop reforça apoio ao Corpo de Bombeiros no combate a incêndio e orienta população sobre prevenção
-
BRASIL7 dias atrásOperação Ágata apreende cerca de duas toneladas de maconha e haxixe na fronteira do Paraná



