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Belo e ancestral, cabelo afro resiste ao racismo estético

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 13 de maio é o dia da abolição da escravatura. São 134 anos que a escravidão foi abolida no Brasil.
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13 de maio é o dia da abolição da escravatura. São 134 anos que a escravidão foi abolida no Brasil.

Black Power, rastafari, com dreads, cacheados, encarapinhados… Os cabelos das mulheres pretas chegam a este 13 de maio — data que marca a abolição da escravidão — livres e como um dos maiores símbolos da negritude ao lado da pele. Protagonista do debate racial desde sempre, ele volta à roda no Brasil de hoje com o resgate da ancestralidade, na ressignificação do conceito de beleza e na denúncia do racismo estético. Na última semana, por exemplo, ao defender seu crespo, uma mulher negra mobilizou o metrô de São Paulo a externar o preconceito sofrido por ela, após uma senhora branca declarar que temia “pegar doença” ao encostar em seu cabelo.

Não é de agora que o cabelo afro é tachado de “feio”, “sujo” e “duro”. O processo de colonização da África, que se repetiu no Brasil, deixou como herança uma sociedade que reconhece majoritariamente os fios lisos como belo, de acordo com a antropóloga Denise da Costa, professora da Universidade da Integração da Lusofonia Afro-brasileira. Graças à atuação secular de movimentos negros, que tomaram fôlego entre 1960 e 1970 com o “black is beautiful” (preto é bonito, na tradução), a história de ancestralidade se traduz por números do Google: nos últimos cinco anos, a busca por cabelos cacheados e crespos superou a de lisos em 309%, de acordo com uma pesquisa do Dossiê BrandLab.

— Na cultura africana, que se tornou marginalizada na colonização, o cabelo cumpre a função de representar a particularidade de cada povo e simboliza fertilidade, classe social, função política. Por isso, o processo de reconhecimento da identidade é muito mais interno do que vindo de uma possível aprovação da branquitude. Negar a nossa beleza foi a primeira arma que usaram contra nós negros, e nós reconhecermos nossa beleza significa reconquistar a dignidade e a humanidade — diz a antropóloga.

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 Transição capilar

Não à toa o processo de transição capilar — em que negros deixam de alisar os cabelos para assumir a forma crespa — tem se intensificado. A analista de sistemas, Olívia Raquel, de 23 anos, começou a fazer relaxamento ainda criança, aos 11 anos, por influência da sua mãe branca. Por cinco anos, ela teve os fios lisos para não ouvir comentários de que tinha cabelos “pichaim” ou “duro”.

— Sinto que alisar nunca foi algo que eu realmente queria — diz ela, que deixou a raiz crescer e viu os cachos ressurgirem aos 16 anos. A modelo gaúcha Tatiani Souza, de 42 anos, hoje assina, artisticamente, “Tati Crespa”. Mas nem sempre foi assim: ela alisou o cabelo por 22 anos. Com o cabelo livre da química há mais de cinco, ela diz que ainda recebe propostas na área da moda para fazer “escova progressiva”. A última oferta foi de R$ 3 mil. Ela recusa e é irredutível, quer que “suas origens sejam respeitadas”.

— Sai Tatiani e entra Tati Crespa. Hoje, quem quiser trabalhar com a minha imagem, vai ter que me aceitar do jeito que sou. Um penteado até vai, mas química nunca mais. Defendo que sou livre para assumir meu cabelo, fazer até uma escova, se eu quiser, mas livre dos preconceitos e imposições —diz.

O mercado de trabalho, por sinal, é um dos espaços em que a presença do racismo estético é forte. Um estudo publicado na revista “Social Psychological and Personality Science”, em 2020, mostrou que durante entrevistas de emprego, mulheres negras americanas com cabelos crespos eram percebidas como menos profissionais, menos competentes e menos propensas a serem recomendadas para uma vaga do que mulheres negras com cabelos alisados e mulheres brancas com penteados cacheados ou lisos. Uma realidade de preconceito que se parece com a daqui: Cristiane de Almeida, de 51 anos, foi vítima do escárnio de um colega de trabalho quando iniciou a transição capilar, há quatro anos, no Clube das Pretas — salão especializado em cortes e penteados de cabelos crespos e cacheados. — O processo de transição foi muito difícil. Um colega puxava o meu cabelo e me ridicularizava na frente das pessoas. Eu me senti mal, achei que estava todo mundo olhando para o meu cabelo. E estavam olhando mesmo. Percebi que tais brincadeiras não eram feiras com outras colegas de cabelo liso e brancas — diz Cristiane. 

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Acolhimento

Levantando a bandeira do “nós por nós”, uma das criadoras do Clube das Pretas, a professora Renata Varella, de 37 anos, defende que a rede de apoio faz toda a diferença no processo de reconhecimento das madeixas afro. — A relação da mulher negra com o seu cabelo natural é de anos de sofrimento. É uma busca infinita por achar que nossos cabelos afros são um problema. Mas isso está mudando — diz a professora.

Segundo a antropóloga Denise da Costa, apesar de lento, o aumento da conscientização sobre o racismo no país é notório e pode ter contribuído para que, no caso de racismo no metrô de SP, centenas de passageiros apoiassem a vítima Welica Ribeiro na denúncia contra a húngara Agnes Vajda.

— Ainda estamos longe de conseguir uma abolição do racismo estético, mas a junção de políticas afirmativas e o interesse das pessoas pelas questões raciais já foi um avanço — conclui.

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Fonte: IG Mulher

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Mulheres com deficiência têm sexualidades negadas e desmotivadas

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Mulheres com deficiência falam sobre sexualidade e os desafios causados pelo capacitismo.
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Mulheres com deficiência falam sobre sexualidade e os desafios causados pelo capacitismo.

O Brasil possui 10,5 milhões de mulheres com algum tipo de deficiência física ou intelectual, segundo um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Apesar de serem uma parcela expressiva da população, as mulheres com deficiência são constantemente marginalizadas e desumanizadas em diferentes áreas da vida, incluindo a sexual.

A infantilização ou a presunção de que todas as pessoas com deficiência não têm sexualidade são algumas das barreiras que essa população enfrenta diariamente, especialmente pelo preconceito de que a deficiência pode, de alguma forma ser um impedimento para uma vida comum. 

Para a ativista e jornalista Sarah Santos, é necessário desmistificar a ideia de que toda pessoa com deficiência é assexual, (pessoa que sente nenhuma ou pouca atração sexual) também chamando a atenção para a importância de reconhecer a autonomia  delas. 

“Eu tenho 24 anos, sou jornalista e pós-graduada. Já comprei uma casa e tenho toda uma vida de autonomia e independência, mas muita gente preconceituosa infelizmente ainda insiste em me ver como uma criança. Por causa da deficiência, acham que eu sempre preciso de alguém, que sou dependente de alguma outra pessoa, mas a verdade não é bem assim. As pessoas com deficiência estão cada vez mais independentes. A nossa deficiência não nos limita, o que nos limita é a sociedade ao nosso redor, que não é acessível e inclusiva”, diz a jornalista. 

Outro ponto levantado por Sarah é o pensamento de que se relacionar com pessoas com deficiência é fazer um favor ou um “ato heróico”. Ela relata como atitudes como essa são capacitistas e afetam negativamente a autoestima dessas mulheres. 

“Quando estamos com pessoas que se colocam num pedestal por estarem conosco, acabamos naturalizando o pensamento.‘Caramba! Fulano é muito bom mesmo por estar comigo, porque olha, eu tenho uma deficiência. Ele podia namorar uma menina sem deficiência, mas ele escolheu me namorar. Que legal!’. Acabamos aceitando qualquer coisa. Se a pessoa nos trata mal acaba sendo aceitável por se tratar de uma pessoa namorando uma mulher com deficiência. Os relacionamentos acabam se tornando abusivos.” explica.

Sarah já viveu esse tipo de relacionamento aos 14 anos, quando teve o seu primeiro namorado. Ela conta que o namoro não era aprovado pela mãe do rapaz por causa da deficiência dela e que chegou a ouvir diversos comentários negativos vindo de diferentes pessoas. No entanto, por ser muito jovem, não sabia como lidar com a situação. 

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“A mãe dele dizia que não tinha preconceito, mas não queria que o filho namorasse comigo por ter medo do que as pessoas iam falar. Ele me apresentava e logo vinham comentários: ‘Nossa! Ela é bonita!’, mas  ele sempre falava, ‘Mas você viu que ela tem uma deficiência?, como se isso de alguma forma me diminuísse. As pessoas o colocavam como um cara muito legal, um super-herói por estar namorando uma pessoa com deficiência Eu só sabia que eu me sentia muito desconfortável com aquilo”, relembra Sarah. 

Dificuldade em relacionamentos

Lelê Martins, criadora de conteúdo digital no Instagram e no TikTok sobre  PCDs, se tornou uma pessoa com deficiência após perder uma das pernas em um acidente. Depois disso, ela viveu experiências românticas negativas. Para Lelê, é difícil conseguir se envolver de forma romântica com outras pessoas e se ver merecedora desse afeto.

“Até hoje tenho bloqueios, porque tenho medo das mesmas coisas acontecerem e tudo se repetir. Claro que a gente trata isso com o tempo, mas a liberdade afetiva e amorosa que tinha antes não voltou. Mas também entendo que tem que ser no meu tempo, então vou com calma e na medida do que alcanço”, desabafa  Martins.

Lelê relata uma das experiências traumáticas que viveu. Logo após sofrer o acidente, ela foi abandonada pelo namorado da época. Martins conta como o acontecimento abalou a sua confiança autoconfiança e como ela ainda está tentando recuperar essa autoestima. 

“Na época eu me culpei por isso, ficava pensando que ele estava mais que certo, porque ‘ninguém merece namorar uma inválida’. Era isso que pensava de mim mesma. Depois só percebi que ele era um covarde por não ter sido cauteloso ao fazer isso. Mas foi horrível para mim na época, porque rapidamente entendi que o afeto não era mais para mim e demorei muito tempo (para entender) que eu tenho direito a viver isso também. Ainda estou tentando”, diz a criadora de conteúdo. 

Padrões de beleza atrapalha autoestima

Lelê destaca como a sociedade retira qualquer traço de sensualidade e atratividade das mulheres com deficiência, fazendo com que elas mesmas se sintam dessa forma. 

“Eu sempre fui fora do padrão, mas uma das poucas coisas que amava no meu corpo eram minhas pernas, tanto que sempre usei roupa curta para mostrar mesmo. Mas quando aconteceu o acidente eu achei o meu corpo horrível. As pessoas me diziam para usar roupa comprida para esconder minha deficiência e foi o que acabei fazendo. E isso gerou um processo de parar de me cuidar, coisa porque ninguém mais ia me querer mesmo. Reconstruir isso foi uma das tarefas mais difíceis da minha vida”.

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Além disso, como mulher preta, ela também percebe a falta do debate racial na comunidade PCD, além da dupla marginalização e solidão que sofre.  

“Essa solidão vai além de relações amorosas. Isso aparece na família, amigos, pessoas próximas, do trabalho  etc. Eu tenho que ser forte sempre, não tenho o direito de chorar. Existe uma falta de racialização do debate, pois são em pouquíssimos casos que pessoas negras são infantilizadas; muito pelo contrário, somos adultizadas muito rápido. Porém, o afastamento do meu direito á sexualidade foi realmente uma pauta quando me tornei  PCD tanto que eu mesma desacreditei ter o direito de viver isso”.

Educação sexual

Falar sobre sexo e sexualidade é um tabu em na sociedade. Essa dificuldade para abordar o tema muitas vezes é acentuada dentro dos lares com pessoas com deficiência. Essas famílias tendem a ser superprotetoras  ou não entendem que PCDs também são donas de  sexualidades como qualquer outra pessoa. 

Sarah Santos defende a importância da educação sexual e relembra como foi  importante para o seu amadurecimento ter um diálogo aberto com a mãe sobre relações sexuais. 

“A gente vive numa sociedade que às vezes é extremamente conservadora, que acredita que o caminho é não dialogar e não ensinar sobre educação sexual. Eu tive sorte por ter esse diálogo aberto com a minha mãe. Foi muito importante para eu conseguir entender situações ruins relacionadas a minha sexualidade e construir a minha autoestima, ter autonomia sobre o meu corpo e tomar as minhas próprias decisões, sem pensar em agradar alguém, seja o meu namorado, as minhas amigas ou a tendência do momento”, afirma a jornalista. 

Difundindo informações

As experiências de Lelê  a motivaram a se comunicar com mais pessoas que podem sentir a mesma solidão e sensação de não pertencimento que ela. Em suas redes sociais ela se comunica diretamente com pessoas com deficiência e traz de uma maneira descontraída informação sobre o assunto. Atualmente, o perfil dela, chamado “blogueirapcd”, tem 36 mil seguidores no Instagram e 28 mil no TikTok.

“Quis começar na internet porque precisava me conectar com pessoas que vivem o mesmo que eu, para entender que não estava sozinha nesse mundo. Acabei encontrando uma comunidade muito acolhedora”, finaliza a criadora de conteúdo. 

Ela não é a única. Sarah também usa as suas redes sociais como forma de ativismo e tem 253 mil seguidores no  TikTok. Lá, ela aborda pautas da comunidade PCD, trazendo informação e desmistificando preconceitos. 

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Fonte: IG Mulher

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